A infância simples de duas irmãs na área rural do interior mineiro nos anos 70 é o fio condutor deste filme baseado em fatos gravado em Belo Oriente (MG). As filmagens de “No Meio de Tudo e do Nada”, de Maria da Conceição Costa, uma das histórias selecionadas pelo Curta Vitória a Minas IV, aconteceram de 12 a 16 de maio.
A auxiliar de limpeza Maria da Conceição Costa, conhecida como Sônia, 62 anos, voltou a Braúna Grande, distrito da cidade, para reconstituir em sons e imagens memórias marcantes ao lado da irmã Terezinha. Filha de Sebastião Nicolau da Costa, o Tião Maria, e Laurinda Maria de Jesus, ela viveu numa casa de pau a pique coberta de sapê junto com os pais e os irmãos. Ao todo, o casal teve dez filhos. Dentro de casa ao lado de Sônia estavam os irmãos Maria, Terezinha, Socorro, Geraldo e Aparecida. José e Luiz morreram antes, ela não os conheceu. O último irmão nasceu morto, se chamaria Divino. Os pais dormiam em um quarto com a irmã mais nova, Aparecida, todos os outros compartilhavam o outro quarto.
“Dormíamos no chão em cima de uma esteira. Tinha época que nem esteira tinha. Nós chegamos a dormir só nas tábuas. Colocava as tábuas em cima da terra batida. E as esteiras por cima. O cobertor era pequeno, uma ficava puxando para um lado, a outra para o outro lado. Quem dormia no meio acabava pegando a coberta toda. Passávamos frio. Às vezes, acendíamos um fogo no meio da sala e juntávamos todo mundo ali ao redor, se aquecendo, depois íamos dormir. O chão era de terra na casa inteira”, lembra Sônia.
Tião Maria era serrador, cortava árvores para fazer tábuas usadas na fabricação de portas, mesas e outros móveis. O pai trabalhava para os fazendeiros e a forma de pagamento não era dinheiro, se dava por meio de trocas, por gordura de porco, canjiquinha, arroz com casca. Algumas vezes, se trocava por um dia de serviço. Era assim: o pai trabalhava para alguém que depois retribuía trabalhando para ele. Era considerado um braçal, capinava, roçava, plantava e colhia. Laurinda assumia as tarefas de casa com a ajuda dos filhos que cuidavam uns dos outros. A mãe também fiava linha de algodão para vender, barganhava, trocava uma coisa por outra, uma vasilha por um alimento, e ainda capinava a roça.
“A gente arrumava casa, cozinhava feijão, fazia café. Minha mãe ensinava. Era comum varrer terreiro, lavar roupa na bacia com sabão que nem espuma dava, surrar a vasilha com bucha de São Caetano. Não tinha uma escova, nem sabão em pedra, nem sabão em pó, não tinha esponja de aço. Areava vasilha com cinzas. A bica era lá embaixo. Tinha que descer o morro pra pegar água para lavar vasilha, roupa. Descer e subir, inclusive na parte da noite, se a água acabasse, porque não havia um depósito de água. Às vezes, no caminho, aparecia cobra”, lembra.
Certa vez, aos seis anos de idade, Sônia estava com a irmã Terezinha brincando no mato. Elas quebravam pequenos gravetos e os colocavam dentro do fruto em formato de cumbuca das sapucaias, árvore típica da Mata Atlântica, quando a mãe exclamou: “Olha, as meninas já conseguem buscar lenha!”. O fogão era de lenha, as panelas de ferro ou de barro, os pratinhos e os talheres de madeira.
“Às vezes, comia com a mão porque não tinha talher para todo mundo. Minha avó comia com a mão porque ela gostava. Era feijão com ovo. Empaliava o estômago, jogava uma coisinha ou outra pra não ficar vazio. E tomava muita água. Pegava muito peixe, passarinho pra comer. A gente também comia rã, coelho, gambá, ouriço, jacaré, capivara”, conta a diretora.
Quando Tião Maria ia vender limão em Coronel Fabriciano (MG) voltava com pão sovado e biscoito de polvilho. Era uma festa. Laurinda assava broa de fubá com melado na caçarola de ferro. “A gente não conhecia o que era tristeza até mesmo porque não conhecíamos outra vida. Só aquele mundo. E era bom. Levantava cedinho, ia já brincar. Se tivesse café, tomava, se não tivesse, não tomava. Às vezes, tinha uma banana cozida, um inhame, às vezes, não. Comia muita coisa do mato. Não era só fruta. Comia flor de vassoura, a Xanana, que é medicinal, hoje usada para fazer xarope. Comia flor de maracujá do mato”, recorda Sônia.
Compondo um filme
A vida era dura por causa das dificuldades financeiras, porém, as duas irmãs aproveitavam a natureza exuberante e abundante ao redor para criarem brincadeiras e se sentirem livres. Construíam balanços de cipó, nadavam na lagoa, pescavam, subiam em árvores, colhiam e comiam frutas, se escondiam no mato, aproveitavam o tempo entre uma tarefa doméstica e outra, entre a vinda da escola e a volta para casa. Sempre juntas e conectadas. Terezinha mais calada e quieta. Sônia mais agitada e comunicativa.
Ao longo do tempo, Sônia trabalhou em muitas áreas: colheu café, atuou como doméstica, capinou na roça, plantou e colheu milho, feijão e amendoim, trabalhou como babá em casas, como cozinheira em restaurante, cuidou de criança em creche, foi varredeira de rua, catadora de materiais recicláveis, uma das fundadoras da Associação de Catadores de Belo Oriente (Ascabeo) e, hoje, é auxiliar de limpeza da Prefeitura Municipal de Belo Oriente. Sempre gostou de estudar e de contar histórias. Descobriu na escola seu amor por ler e escrever. Tornou-se escritora e poetisa.
“Eu escrevo desde criança sobre a vida real, sobre coisas que acontecem comigo e com o outro. Escrevo poesia e prosa, principalmente, quando estou em casa, na cama, à noite. Às vezes, estou na rodoviária, por exemplo, e escrevo também. No celular ou no caderno. A poesia me dá uma emoção forte, uma coragem, por saber que eu existo. Por mais que saiam fragmentos, venham a chuva, o vento. Eu me sinto bem assim, embora, às vezes, com uma fragilidade danada, mas me sinto uma rocha”, conta.
A menina que aprendeu a ler rápido e a se expressar na escrita conheceu o cinema. Para ela, a oportunidade de fazer um filme é um recomeço porque lhe trouxe coragem e confiança para viver a arte. Durante a pré-produção, ela se empenhou para cuidar dos detalhes para as gravações: costurou os figurinos, ensaiou o elenco, selecionou os objetos de cena, mobilizou familiares e amigos e visitou os lugares para escolher as locações. As cenas foram gravadas em diferentes locais em Braúna Grande e na sede do Belo Oriente. Os espaços se assemelhavam aos ambientes reais em que a história se desenrolou, dando um gostinho a mais de emoção à vivência cinematográfica.
A educadora física Rayane de Fátima Costa, 29 anos, filha mais nova da diretora, acompanhou a mãe desde a inscrição da história, a pré-produção até a gravação das cenas na cidade. Segundo Rayane, é maravilhoso ver as lembranças de infância da mãe sempre contadas em casa se transformarem em um curta-metragem.
“Achei muito incrível acompanhar de perto os bastidores com ela, ver cada detalhe, cada cena, ver tudo saindo do papel e ganhando vida, com a equipe maravilhosa. Um desafio foi a escolha das atrizes principais, os ensaios. Houve um pouco de dificuldade para reunir todos, por causa das questões de horários, mas deu tudo certo. Foi minha primeira experiência com filme, nunca tinha participado de nada assim. Fiquei muito encantada com a câmera, com o resultado de cada cena, com o mundo da gravação. Eu estava ali juntinho com minha mãe, assistindo tudo. Esta história virar um filme é muito importante para ela, a realização de um sonho. E, no fim, todo o esforço dela valeu a pena e ficou muito lindo”, conta Rayane, que além de auxiliar no processo de pré-produção e produção, fez o papel de Mercês, a patroa da menina Sônia na história.
As conquistas e desafios
Estudante do 6º ano do ensino fundamental, Stella Barbosa Lima, 11 anos, foi convidada para o papel da protagonista. Esta é sua primeira atuação no cinema. A menina se emocionou diante da oportunidade de fazer um filme e buscou ensaiar suas falas na parte da noite no período da pré-produção. Nos dias de filmagem, aprofundou ainda mais o entendimento sobre sua personagem ao acompanhar de perto a relação de carinho e cumplicidade entre as duas irmãs da vida real.
“Nas gravações, quando elas estavam próximas, deu pra perceber como elas são. A Terezinha ficava quietinha enquanto a Sônia anda e mexe os pés, não consegue ficar parada. Eu me identifico muito com a minha personagem porque também não consigo ficar parada. Começo a andar, a mexer o pé, a cantar, a escrever, a ler. O filme mostra como elas viviam juntas. A mais nova cuidava da mais velha. Acho muito interessante estas histórias. Eu espero que elas nunca se separem e continuem unidas deste jeito. Eu achei incrível encenar, é um momento único da minha vida porque recebi esta oportunidade. Eu me imagino atriz no futuro, então, isso é um grande passo”, conta Stella.
Vivenciar uma infância ao ar livre com os pés descalços no meio da natureza selvagem foi um desafio para o elenco mirim acostumado com as brincadeiras dos tempos atuais. Quem conta é Sofia Ramos Maia, 11 anos, estudante do 6º ano do ensino fundamental, escolhida pra o papel da Terezinha. “Eu nunca tinha feito um filme antes. Eu me preparei em casa, acabava de fazer minhas coisas e lia o roteiro. Gostei da gravação e da equipe. O mais desafiador foi a parte da cachoeira. A gente ficava escondida entre as pedras, a água trincando de gelada e tinha que ficar abaixada, mergulhando a cabeça”, lembra Sofia.
A dona de casa Terezinha da Penha Costa Sena, 64 anos, integra o elenco do filme ao lado da irmã. Ela nunca se imaginou em um filme ainda mais para contar uma história inspirada em suas memórias de infância. Quando Sônia a convidou, ela teve dúvidas por causa da timidez. “A minha irmã me convenceu a participar. Eu fiz um pequeno papel contando o passado. Estou achando interessante contar esta história simples lá da roça que tem muito valor. A gente foi criada na simplicidade, uma vida muito honesta. Meus pais nos deixaram uma herança, um legado muito bom, um exemplo de vida. É o que importa mais”, conta Tê, como é chamada por Sônia.
Terezinha gostou de participar do set e de conhecer a equipe de gravação. Ela sente saudades das brincadeiras de roda, de subir em árvores, de tomar banho na lagoa, embora a mãe brigasse muitas vezes com as filhas. “A minha irmã sempre gostou de escrever poesia. Não passou pela minha cabeça que poderia chegar a este ponto de fazer um filme. Graças a Deus, ela conseguiu. Era o sonho dela, estou muito feliz por ela. Vai ser muito bom, uma história contada assim pelo Brasil, porque aqui onde a gente mora quase não tem muita coisa, então, vai ser novidade para todos aqui”, destaca Tê.
A alegria de transformar uma história em filme se mistura ao desafio de viver todas as etapas de construção de uma obra audiovisual, de entender como funciona a linguagem e as técnicas do cinema. Segundo a diretora, cada detalhe é importante para o desenvolvimento do curta e a equipe de gravação foi muito dedicada e atenta à delicadeza deste processo composto por decisões rápidas e precisas. “Dirigir um filme é desafiador porque envolve pessoas, exige disciplina. Tem hora que a gente se perde mesmo e não pode. É preciso ter todo um jogo de cintura. É uma mistura, um corre de lá, um grita de cá. Eu me preparei para estar ali, no entanto, tive muita dificuldade para fluir. Foi forte demais! A parte mais fácil foi escrever porque eu escrevo fácil. O restante foi um desafio. É difícil, é minucioso, mas eu faria de novo”, conta a diretora.
O que mais a impressionou no set foi ver a transformação, a história se tornando filme em cada cena. Um dos momentos mais marcantes foi gravar dentro da escola porque é o lugar onde escreveu a sua primeira poesia aos 10 anos de idade. Para Sônia, realizar o filme abre caminho para a realização de outro sonho: publicar seus livros de poesias, contos e composições musicais.
E ainda, o Curta Vitória a Minas IV impactou a vida da família. “Fazer um filme é uma loucura! Quando se escreve, a gente pensa “vou fazer um filme”. Quando é escolhida, toma um susto e começa a correria. Foi muito bom, magnífico, mas foi duro, especialmente na pré-produção. Organizar o elenco, juntar as pessoas, encontrar as locações, desafios que tivemos que superar. A minha irmã participou e se envolveu muito. Ela está feliz porque este filme está sendo um resgate, pois mexeu com toda família. A obra veio pra ser uma cura, não somente para mim, para muitas pessoas, para meus filhos”, declara Sônia.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima





