Um dia o menino apaixonado pelos sons e cantos do mundo sonhou unir a família pela música. Aos 12 anos de idade juntou os pais, irmãos e primos para formar um coral no território sagrado habitado pelos descendentes de seus ancestrais vindos da África. A Família Alcântara Coral cresceu, se fortaleceu, percorreu lugares dentro e fora do país e foi reconhecida como bem cultural imaterial. Agora, com 63 anos de trajetória, o coral ganhará um filme em homenagem a seu fundador, Pedro Antônio Alcântara, o menino autodidata que se tornou maestro cujo carisma, talento e generosidade inspirou gerações de cantores e músicos. As gravações de “Pedro Além do Alcântara”, de Miriam Firmo, sobrinha do maestro, uma das histórias selecionadas para virar filme pelo Curta Vitória a Minas IV, aconteceram de 06 a 09 de maio em João Monlevade (MG).
Filho de Filomena Tomázia e Pedro Arcanjo, Pedro Antônio nasceu em 28 de agosto de 1951. Era o penúltimo de nove filhos do casal. A família vivia no Quilombo do Caxambu, no distrito de Padre Pinto, em Rio Piracicaba (MG), quando o coral, em 1963, caminhou os primeiros passos inspirados pelas raízes sonoras afro-brasileiras que ecoam das expressões culturais, como o congado e os festejos em devoção ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário.
“No interior não tinha nada e o nosso passatempo era cantar, brincar de cantar, brincar de artista e brincar de cantor e de cantora. Quando montou o coral, ele tinha doze anos, e eu dez anos. A nossa história era de cantar só de ouvido. Mas ele conseguiu me passar as músicas mastigadas e eu cantava junto com o ele e com o grupo”, lembra a irmã Ivone de Fátima, 72 anos, aposentada.
O coral erguido nos quintais do quilombo se mudou para João Monlevade. Um dos irmãos mais velhos, Joaquim Firmo, casado com Mercedes Firmo, pais de Miriam, depois de se estabelecer, trouxe um a um dos irmãos para ocuparem os espaços de trabalho e emprego na cidade industrial. Pedro trabalhava na indústria e em outros postos ao mesmo tempo em que aperfeiçoava seus estudos em torno das técnicas vocais, aplicando-as no coral, ensinando irmãos, sobrinhos e outros membros da comunidade os caminhos para se conquistar uma voz afinada e potente. Impulsionado por aprender mais e em busca de oportunidades em outras partes do mundo, se mudou para o Canadá, onde viveu por dez anos.
“Meu tio deu muita atenção a todos nós, principalmente os menores, cuidou de nós, como se fosse pai, dando-nos os ensinamentos musicais. Nós tivemos muitos bate-papos nesta vivência, no primeiro período de minha vida. Sentimos muito quando ele, por opção, resolveu ir para fora do país para tentar uma carreira, uma condição melhor para ele, para minha avó e minhas tias, que moravam com ele. Aquilo foi um corte muito pesado, principalmente, para nós, que éramos muito próximos como alunos, cantores, embora sem aquele compromisso de nos tornarmos cantores, mas ele nos ensinava a ser profissional na música. Choramos muito com a partida. Quando retornou foi uma festa só. Do coral que ele havia deixado moldado já tinha um grande nome no cenário musical e cultural. As oportunidades vieram e ele chegou na hora certa. A gente precisava da mão pesada dele, do conhecimento dele, em todos os sentidos. Não só como maestro, mas como grande cantor que era”, conta o gerente operacional e de logística, Anderson da Conceição, 51 anos, sobrinho de Pedro, filho de José da Conceição, o tio Dé. Ao retornar ao Brasil, o professor trouxe novos conhecimentos musicais para compartilhar com o coral que, neste tempo, havia introduzido instrumentos de percussão, como tambores, pandeiros e atabaques, à performance do grupo.
“Como cantor era um barítono aplicadíssimo, com uma afinação extraordinária, tendo um grave incomparável e uma potência muito grande nos médio-agudos. Era muito bom como cantor! Adorava uma opera! Como maestro, ele exercia uma mão pesada, nós tínhamos o ensinamento com horário para chegada, mas a hora de saída do ensaio só quando a obra estivesse pronta. Mas, quando estava apertando demais, ele fazia uma graça. Assim nos tornamos cantores do padrão que ele queria”, lembra Anderson, que seguiu os passos do tio aperfeiçoando-se como cantor e maestro.
Seis décadas de caminhada
Em mais de seis décadas, o coral realizou cerca de 900 apresentações culturais, institucionais e religiosas, marcando presença artística em seis estados brasileiros e dois países europeus (Portugal e Itália). Dividiu palco e/ou participou de projetos com importantes nomes da música brasileira, entre eles, Chico César, Martinho da Vila, Zezé Motta, Elza Soares, Maurício Tizumba e Markus Ribas. A Família Alcântara Coral foi reconhecida pelo Conselho Municipal de Patrimônio Cultural de João Monlevade como bem cultural imaterial do município. Hoje é formado por cerca de 28 integrantes, entre crianças, jovens e adultos. Em 2020, Pedro Antônio Alcântara faleceu durante a pandemia da Covid, aos 69 anos.
Era um maestro exigente, técnico, concentrado, um homem calmo, alegre e divertido, dono de uma gargalhada solta e contagiante. Estudou até a quarta série do primeiro grau (ensino fundamental). “Eu decidi fazer este filme por ser uma história muito peculiar. É uma situação rara: uma pessoa ser tão apaixonada por música a ponto de formar um coral com os próprios familiares aos 12 anos de idade. Ele era um apreciador de canções que vinham de diferentes partes do mundo, era um ser pensante, pensava diferente de todo mundo. Aprendeu inglês lendo livro, aprendeu chinês quando morou no Canadá. Na minha cabeça de criança e de adolescente tinha esta imagem de uma pilha de livros na estante. Quero contar esta história pela importância do Tio Pedrinho. A sua história está viva, o coral está vivo! Que isso seja divulgado para todo o planeta porque é difícil encontrar uma pessoa com a diferença dele, alguém com este sonho que ele sonhou e realizou”, conta Miriam.
História que vira filme
Quem incentivou a diretora a se inscrever no Curta Vitória a Minas IV foi a sua filha Júlia Alcântara, 30 anos, gestora e especialista em contratos. Desde pequena, a menina se dedica a registrar em fotos as memórias da família e motivou a mãe a contar a história do tio para ser transformada em documentário. Durante a pré-produção, ela acompanhou Miriam em cada etapa do processo de construção da obra, as inúmeras revisões de roteiro, a descoberta das cartas escritas pelo tio quando morava fora do país, a garimpagem das fotos guardadas pelos familiares, a escolha dos objetos de cena, a preparação da casa da avó Mercedes para receber as filmagens.
“Eu queria muito que as pessoas conhecessem quem foi o tio Pedrinho além da família Alcântara, como pai, maestro, como tio, como professor. Eu fico muito feliz porque esta história está sendo construída desta forma e tenho certeza que é um chamado para as pessoas valorizarem a cultura e a herança, para dar continuidade a tudo o que vai vir, transmitir os saberes e o conhecimento, um legado muito grande da minha família”, destaca Júlia.
A estudante Alice Helen Firmo Rocha Martins, 18 anos, filha mais nova da diretora, integrou a equipe local ao auxiliar na produção e no registro documental dos locais do filme. Ela começou a cantar aos quatro anos de idade, incentivada pelo tio Pedrinho e, hoje, se dedica ao canto dentro e fora do coral. “A partir do momento em que eu conheci a música através do tio Pedrinho, que vivi a experiência de subir no palco, me apaixonei. Estar por trás dos bastidores deste filme foi muito marcante. Acompanhar o depoimento das pessoas que marcaram a vida do meu tio foi emocionante por ver os resultados dos ensinamentos que ele trouxe na vida dos meus familiares, dos alunos. Enxergar de perto a história do meu tio sendo contada de uma forma tão intensa me fez chorar de emoção, de alegria porque ele foi um exemplo pra mim”, conta Alice.
Quem participou do elenco das gravações foi Zacarias Firmo, 61 anos, metalúrgico aposentado, irmão da diretora. O sobrinho do maestro destaca a inteligência e a dedicação do tio aos estudos e ao ensino da música e de línguas estrangeiras mesmo sem diplomas escolares. “O documentário retrata e mostra bem quem foi o tio Pedrinho. Ele era uma pessoa ímpar, nasceu com o dom de vencer, com o dom da música, trouxe a música no sangue, como nossos afrodescendentes trouxeram a música da África. Trouxemos isto dentro dos navios negreiros. Nossos ancestrais, os príncipes, os reis, as rainhas, já traziam isso para o Brasil. Nós só demos continuidade ao trabalho reconhecido pelo talento e pelo conhecimento que meu tio tinha sobre a obra e a musicalidade afrodescendente, africana e sobre nossas músicas culturais do congado onde tudo começou”, resgata Zacarias.
O documentário será composto por depoimentos de pessoas que conviveram com o maestro e por encenações de episódios marcantes da vida do artista. Para encená-lo, a diretora convidou o jovem cantor e músico Anderson Gabriel Estanislau Marinho, 22 anos, maestro do Ministério Jovem da Paróquia São Luis Maria de Montfort e integrante do Coral Monlevade. Seu jeito de coordenar um coral chamou a atenção da família por se assemelhar ao estilo de regência de Pedro Alcântara. Apesar de não o ter conhecido, Anderson Gabriel sempre ouviu falar do fundador do Coral Família Alcântara.
“A experiência de participar deste projeto foi incrível. Uma experiência que levarei pra minha vida por representar uma grande referência da cidade através da música. Quando a gente pega uma representatividade grande da cidade como o Pedro para falar é até difícil, imagine encenar. Ele teve uma presença muito forte na música. A forma do cantar, a forma do se expressar, eu percebi fazendo o papel dele. Interpretá-lo foi difícil porque, querendo ou não, não parece, sou uma pessoa tímida. Ele era o oposto do tímido. Foi um prazer enorme ter feito este projeto”, relata Anderson Gabriel.
Atualmente, o jovem se dedica ao ensino do violão, mas seu principal instrumento é a voz, sua atividade primordial é cantar. Segundo ele, a regência do Pedro era marcante, ao mesmo tempo forte e delicada, um desafio para interpretar, mas que lhe trouxe um grande ensinamento e o motivou a retomar o curso de licenciatura em música. “A vivência de gravar este filme me deu um impulso a querer continuar e a entender mais que o meu lugar é na música. Ao ver uma pessoa tão simples, que tinha um conhecimento tão grande, chegar além das fronteiras, me sinto impulsionado a querer chegar cada dia mais além das fronteiras, além dos meus limites na música, a aprender cada dia mais, com o exemplo do Pedro, a ter sempre esta alegria no cantar, esta presença na voz”, revela Anderson Gabriel.
Família reunida
O sobrinho Anderson da Conceição enaltece o documentário como uma oportunidade de reconstrução da história da família porque resgata acontecimentos que não conheciam e tanto outros esquecidos no tempo. “Este momento do filme foi muito importante porque o legado maior que ele queria deixar pra nós é o de ver a sua família junto. Ele não queria, acredito eu, que fôssemos grandes cantores, que ficássemos famosos, não era isso. O projeto dele era conseguir colocar os irmãos, os filhos dos irmãos, os sobrinhos, os netos, toda a família reunida. A gente não pode perder esta essência, principalmente, se o pegarmos como referência na nossa vida. Então, a construção deste filme fez renascer em nós esta chama da união mais uma vez”, avalia o sobrinho.
De acordo com a diretora, a etapa de filmagem fluiu com muito companheirismo e amizade entre a equipe local e a equipe de profissionais do projeto. Para ela, dirigir o filme foi uma emoção grande, ainda mais dirigir a própria família. Ao mesmo tempo, ela conta, foi desafiadora a função de entrevistar, conversar e ter de interromper as pessoas para fazer novas perguntas durante a gravação dos depoimentos.
“O que eu mais gostei foi ver a emoção, aquela devolução de carinho, aquele interesse de participar, a felicidade de cada pessoa de estar ali comigo, de me ajudar. Foi emocionante ver a participação da minha família, todos muitos bonitos, todos organizados, para contribuir com este filme. Depois que terminou, a família se reuniu para comemorar, para rir, até mesmo para me agradecer. Minha mãe me agradeceu muito, abençoou o filme e me abençoou pra que eu seja feliz com este filme. Família Alcântara é um nome só fictício, um nome de impacto. No fundo do coração do tio Pedrinho, o objetivo dele era ter a família reunida através da música. Reunir, religar a família era a ideia dele. Acho que o momento é desta religação. O filme está trazendo isso”, celebra Miriam Firmo.
Texto: Simony Leite Siqueira
Foto: Mariana de Lima




