O Curta Vitória a Minas IV encerrou no domingo (03/05) a gravação da primeira das sete histórias contadas por moradores de cidades mineiras e capixabas do entorno da Estrada de Ferro. Esta primeira história veio de Nova Era (MG) e volta 17 anos para narrar o quanto viver é inesperado e extraordinário.
Vinte e quatro de janeiro de 2009. Poliana Guerra tinha 32 anos. A garota apaixonada por livros e viagens seguia para o Cemitério da Colina, em Belo Horizonte (MG), para acompanhar um sepultamento, quando, na Avenida Amazonas, o carro em que estava foi atingido por outro veículo. Poliana fraturou a bacia, o fêmur, quebrou seis costelas, teve lesões no fígado, no pulmão, nos rins, na bexiga e traumatismo cranioencefálico grave próximo a uma morte cerebral.
Uma comoção tomou conta da pequena cidade mineira que se mobilizou através de orações e de mensagens escritas a mão que chegavam para família. Após 28 dias em coma, Poliana despertou. Depois de sobreviver ao acidente e voltar do trauma, ela encarou uma batalha lenta e delicada para recompor suas funções físicas e cognitivas e para reconstruir quem era com o apoio e o acompanhamento de familiares e de profissionais de saúde (fisioterapeutas, fonoaudiólogos, médicos, psicólogos e educadores físicos). Ela sentia muita dor, não andava, não se alimentava sozinha, tinha metade do corpo paralisado (hemiplegia direita) e havia perdido décadas de memória. Teve diplopia (visão dupla), perdeu o paladar, o tato, não distinguia cheiros, ouvia mal do lado direito e falava de modo embolado e rápido.
Aos 49 anos de idade, Poliana Araújo Guerra, a nova erense formada em Comunicação Social com especialização em Relações Públicas e em Administração de Empresas com especialização em Comércio Exterior, foi selecionada pelo Curta Vitória a Minas IV para contar sua história no cinema.
“A nossa capacidade é imensurável. O que o humano tem de frágil, tem de imenso. O diagnóstico que tive quando saí do hospital era de que eu poderia ser tudo ou nada. E eu decidi que seria tudo. E tem sido. Os médicos falaram que, provavelmente, eu não voltaria a andar, que eu não raciocinaria, que dependeria das pessoas para tudo. Eu voltei a andar, faço tracking, ginástica, subo montanhas, nado, faço tudo, com alguma debilidade, mas nada que me impeça de fazer o que eu quiser fazer. E eu estou produzindo um filme: a minha capacidade intelectual está aí também”, destaca Poliana que nunca havia feito um filme e se encantou pela nova linguagem durante a imersão audiovisual de 15 dias, ocorrida no ano passado, em Vitória (ES), e agora, nas filmagens realizadas de 30 de abril a 03 de maio em Nova Era.
A ideia é fazer um filme-ensaio, combinando narrativas, reflexões, ficção e documentário, sem formato, encaixes ou conceitos definidos, uma mistura de tempos, um recorte sem sincronia de imagens e sons, um mosaico de emoções, lembranças, esquecimentos, confusões, silêncios e descobertas, próximo à desordem mental enfrentada pela diretora no decorrer da reconstrução da memória, trazendo para o espectador um pouco da experiência da protagonista de buscar a si mesma pelo o que as pessoas contam e pelo que ela, aos poucos, vai se lembrando e reconstruindo.
Ressignificação
A diretora convidou familiares e amigos para vivenciarem no cinema o que haviam sentido ao seu lado na vida real. Márcia Araújo Guerra, mãe de Poliana, estava apreensiva para atuar porque não sabia como reviver diante da câmera situações e sentimentos tão intensos. “É um turbilhão de emoções porque a gente revive mesmo, principalmente, na cena do hospital. Eu fiquei encantada com as filmagens porque é uma coisa muito nova pra mim, nunca vi e nunca vivenciei. A gente lê sobre uma filmagem, mas nunca participei, ainda mais para contar um fato, que apesar de ter acontecido há muito tempo, mexeu muito e até hoje tem reviravoltas. Foi uma emoção reviver tudo aquilo que foi muito marcante e muito traumático. Em algumas cenas, se eu pareci natural, era porque eu estava realmente revivendo tudo aquilo que aconteceu”, conta Márcia. Segundo ela, a competência, a perseverança e a dedicação da equipe de profissionais ajudaram-na a enfrentar o desafio do set de filmagem rico em detalhes técnicos e artísticos.
Quem também interpretou o próprio papel foi Melissa Batista Lobo, fisioterapeuta, que acompanhou todos os dias, durante um ano, o processo de recuperação dos movimentos da diretora após o desastre. As duas estudaram juntas do Jardim de Infância até o segundo grau. O acidente a deixou muito abalada e apreensiva no início, mas, ao ser convidada para a reabilitação da amiga, ela tinha certeza de que faria o melhor para recuperá-la. “Foram meses intensos, de muitos desafios, mas também de alegria por estar novamente próxima de uma amiga querida. Principalmente porque a memória antiga dela era mais preservada, então ela se lembrava de nossa adolescência e essa parte era bem divertida”, relembra a fisioterapeuta.
Melissa achou incrível a experiência de participar do filme. “Eu nunca tinha feito nada parecido com isso. Estou animada e ansiosa pra ver o resultado! Relembrar essa história junto com a Poli é um privilégio. O processo de reabilitação dela foi um desafio pra mim como profissional e reviver esses momentos está sendo emocionante. Contar essa história em um filme é muito bacana, pois é uma história linda de superação e força de vontade. Fiquei um pouco nervosa com as gravações, por completa falta de experiência, mas a equipe é ótima e fez tudo fluir”, relata Melissa.
Para encenar a sua vida no filme, Poliana convidou outra amiga, a psicóloga e neuropsicóloga Juliana Lage Affonso. “Foi uma experiência muito intensa, um grande desafio. Não somente pela total falta de experiência. Eu tinha a consciência de que não era somente fazer um papel — afinal, é uma história real. Uma jovem com a vida muito ativa e próspera que sofre um acidente e fica com uma série de sequelas físicas e cognitivas. Quase sem memórias. Meu maior compromisso, então, foi tratar esse momento com todo o respeito e honrando o que minha amiga viveu e o que imagino que isso significou, especialmente para a mãe e a família. Ao mesmo tempo, é uma história que vai além do grave acidente. É sobre força, reconstrução e recomeço. São 17 anos dessa trajetória. Ver tudo o que a Poliana conseguiu superar e, anos depois, iniciar uma nova fase da vida, construindo novas memórias inclusive com a maternidade, torna tudo ainda mais poderoso! Espero que o Curta toque as pessoas não pela dor, mas principalmente pela mensagem de esperança e de que é possível recomeçar, mesmo atravessando algo tão difícil”, destaca Juliana.
Criação coletiva
Dezenas de familiares e amigos integraram a equipe local se dividindo em diferentes funções técnicas e artísticas para a realização do filme. Uma das parceiras da diretora desde a pré-produção, que incentivou a autora a inscrever a história, e tornou-se assistente de direção nas filmagens, é a turismóloga Sandra Coelho, moradora de Nova Era, selecionada com a história “Revelações de Carnaval” na terceira edição do Curta Vitória a Minas.
Sandra sentiu-se honrada e motivada por voltar a um set de filmagem para reviver a experiência de transformar uma história em filme. “A história de Poliana é forte e potente. Estou extremamente impactada com a riqueza dos detalhes que vão ser contados nesta história e com a coragem dela de levar isso para o mundo em forma de filme. Chorei várias vezes por estar ao lado dela e por acreditar que esta história vai emocionar e levar as pessoas a refletir sobre a importância de acreditar em si e de andar para frente apesar de todas as dificuldades”, destaca Sandra.
Poliana conta como o envolvimento de cada participante a fortaleceu em cada momento desta maratona audiovisual. Segundo ela, este cuidado começou com a qualificação no curso audiovisual, a partir do acolhimento e das orientações técnicas dos professores, se estendeu durante a pré-produção, com as revisões de roteiro e o acompanhamento da produção, se somou à adesão dos amigos e familiares ao elenco até se aprofundar na vivência no set ao lado dos profissionais de cinema.
“Quando acho que a cena está perfeita, vem o Mazza (direção de fotografia) com uma outra ideia, com um outro ângulo, com um outro olhar, inserindo um detalhe na cena. Ou vem a Bia (produção) propondo outras perspectivas. A gravação trouxe uma riqueza, um mundo de experimentações muito gostoso. Eu também fiquei encantada com a adesão do pessoal de Nova Era que chamei para participar comigo. Sandra, que me orientou no passo a passo, já encarou este processo na terceira edição, então, ela me fez centrar, focar para eu não me perder diante de milhares de outras coisas que estavam acontecendo no set. Eu me senti assim totalmente qualificada pra fazer isso porque eu estava cercada de gente muito capaz e que estava me ensinando o tempo todo. Este processo aconteceu desde o início, com a Lulu (professora de roteiro), com a Márcia (professora de montagem), eu senti isso muito forte desde as aulas e continuo sentindo este suporte. Não consigo encontrar superlativos que sejam suficientes para descrever tanta alegria, cuidado, amor e profissionalismo, tanta experimentação maravilhosa. Este projeto é imenso, muito rico e nos capacita para produzir cinema. Isto é acesso integral à sétima arte. Para além do consumo, produção”, enfatiza Poliana.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima

