Primeiros passos pra criar uma obra documental

Das dez histórias selecionadas pelo Curta Vitória a Minas II para serem transformadas em filme, seis são ficções e quatro se classificam dentro do gênero documentário. Tanto a ficção quanto o documentário abrem infinitas possibilidades criativas.

Quando se deseja construir uma obra documental, o cineasta precisa descobrir um jeito singular de contar a história que possa despertar a atenção e o interesse do espectador para a temática proposta pelo curta-metragem. Em conjunto com outros profissionais renomados do cinema, a documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual, Beth Formaggini, vem auxiliando os novos autores no percurso de descobertas em busca do filme.

Nesta entrevista, a cineasta destaca as primeiras ferramentas na criação do documentário. Para dar pistas deste processo, ela resgata um pouco como foi produzir e dirigir “Pastor Cláudio – 76”. A obra traz uma conversa entre o bispo evangélico Cláudio Guerra, ex-chefe da Polícia Civil, que assassinou e incinerou militantes contrários à Ditadura, e Eduardo Passos, psicólogo responsável por atender pessoas que sofreram violência do Estado. Lançada em 2019, a obra venceu diversos festivais e mostras.

CVM – O documentário tem roteiro?

Beth – Particularmente, não acredito muito em roteiro pra documentário. Pra fazer um documentário, é preciso muita pesquisa. A partir daí, se entende qual filme será feito. Cada documentário tem uma forma diferente. Ficção pode ter mil formas de fazer. Mas o documentário é praticamente uma ideia.

Existe uma infinidade de tipos de obras documentais. Um exemplo é o documentário de observação em que a câmera acompanha situações vivenciadas pelos personagens sem a necessidade de entrevistar. Alguns documentários são totalmente elaborados a partir de entrevistas. Existem os formatos mais poéticos, como os ensaios. Outros utilizam material de arquivo. Então, não existe um formato rígido. Esse jeito vai se constituindo a partir de uma pesquisa grande sobre o assunto, o conceito e a forma.

CVM – Como se chega à forma?

Beth – Depois da pesquisa, é necessário encontrar um dispositivo sobre como fazer o seu filme. O documentarista cria um dispositivo que o levará para uma forma. Por exemplo, para fazer o filme sobre o pastor Cláudio Guerra, um assassino que cometeu crimes durante a Ditadura e que resolveu falar, criei um dispositivo para colocar o pastor e um psicólogo no espaço de um estúdio.

Decidi fazer projeções em cima do corpo do pastor em uma tela e, a partir destas projeções e desta interação com o psicólogo, foi possível quebrar o discurso pronto do ex-policial. Ou seja, o filme inteiro é composto por dois homens conversando, com projeções numa tela atravessando o corpo do pastor. Depois, na montagem, também se faz um roteiro que passa a ter uma versão final.

CVM – Como se monta essa pesquisa?

Beth – Quando fui fazer o documentário sobre o pastor Cláudio pesquisei o Rithy Panh, realizador cambojano que pesquisa assassinos da ditadura, que também trabalha com fotos. Em um dos filmes, esse diretor dispõe fotos em cima de uma mesa. Quando a foto entra em contato com o assassino ganha outros contornos e sentidos e provoca outras reações porque o personagem é impactado pelas imagens das vítimas que morreram na mão dele, como a professora que ele teve na escola. Ao ver a imagem, o personagem se emociona e começa a falar, embora seja um assassino frio. A foto não está ali para ilustrar. E o documentarista filmará isso no tempo presente, no tempo da filmagem.

CVM – O documentário é muito livre?

Beth – Completamente. Cada filme é diferente do outro. A gente está exibindo para os autores das oficinas audiovisuais filmes muito diferentes pra que eles tenham esta liberdade de criação. Pra entortar um pouco a cabeça deles, pra verem que documentário não é aquilo que vêm na reportagem da televisão.

CVM – Como está a preparação destas histórias e autores para a realização dos filmes documentais?

Beth – Está indo super bem porque o que a gente faz, no início, é dar as ferramentas, falar das pesquisas, de como é importante pesquisar, não somente o assunto, mas os personagens que possam participar, que tenham a ver com essa temática, procurar os lugares essenciais para serem filmados, principalmente, e definir as ações que serão filmadas. Depois que pesquisam e vão buscar esses elementos, eles começam a construir quais personagens vão estar em quais locais, realizando que tipo de ação.

CVM – Ao voltarem para suas cidades, o que eles precisam levar como ferramentas para a construção do documentário?

Beth – Insistimos muito em descondicionar a cabeça deles com relação ao cinema. Você tem liberdade pra criação, invenção, com responsabilidade, porque está num projeto que realizará um filme. O mais importante é que eles se sintam livres para criarem obras. Quanto mais forem fiéis a si mesmos e livres para criar, mais estas obras vão tocar e fazer com que as pessoas se emocionem, pensem, e se relacionem com o filme de uma forma mais intensa.

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Gustavo Louzada

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