O que está fora do quadro também importa

Os objetos de cena, os cenários, as cores, os figurinos e a movimentação do personagem, tudo o que está em cena contribui para a experiência de ver um filme. No entanto, o que está fora de quadro também pode contar uma história. Refletir sobre este mecanismo de criar novos jeitos de construir uma cena foi o desafio dado pelo cinema de grupo para as autoras e autores do Curta Vitória a Minas III, reunidos de 13 a 28 de abril, em Guarapari (ES).

O exercício consistia em filmar uma cena inspirada pela ideia do fora de quadro. Ou seja: criar uma cena em que alguma informação muito importante não aparecesse na imagem. “O nosso desejo com este exercício era de que as pessoas pudessem experimentar a força daquilo que não se vê. O poder da sugestão no cinema em contraponto com a afirmação, com a explicação”, destaca Mariana de Lima, uma das professoras da oficina.

Mariana e Cintya Ferreira, pesquisadoras do cinema de grupo, envolveram os participantes num mergulho dentro da linguagem e das técnicas audiovisuais. Segundo Mariana, muitas histórias desta coletânea do projeto trazem elementos de fantasia e mistério, o que abre margem para exercitar a imaginação.  

“A gente conversou muito sobre isso: não é só sobre a narrativa, sobre a história que vai se contar, mas sobre como a gente vai contar essa história. Se aquilo que está em cena não me entrega todos os elementos de uma vez, eu tenho que completar na minha imaginação. Conversamos sobre o quanto isso que está fora de quadro também compõe a história, o quanto o expectador é uma figura absolutamente participante do filme”, ressalta Mariana.

Morador de Ibiraçu (ES), Otávio Luiz Gusso Maioli, selecionado com a história “As Cercas”, elaborou o exercício de cinema de grupo junto com outro participante, Levi Braga, morador de Governador Valadares (MG), selecionado com a história “A Velha do Rio”. “Esse exercício de trazer elementos sonoros não presentes nas imagens para as cenas aumenta a capacidade de percepção em relação à compreensão do que se quer transmitir com o filme e as possibilidades de entendimento variado de acordo com o expectador. E aprender sobre isso e aprofundar numa discussão a respeito deste método pode trazer uma contribuição para os nossos filmes e também para uma melhor entrega, uma melhor qualidade do trabalho. Não só este exercício, como todos os outros são essenciais para isso”, conta o capixaba.

Segundo Mariana, não destrinchar, não explicar, é um caminho muito mais curioso e criativo, pois convoca o espectador para completar o filme e a história, criando muitas aberturas para os pensamentos e as ideias de quem assiste, colocando-o na cena.

A professora Márcia Cristina Cândido Cruz, moradora de Conselheiro Pena (MG), selecionada com a história “Um Rio de Histórias”, também participou do experimento. “Eu penso que o exercício foi de imensa grandeza uma vez que mostrar na tela do cinema uma coisa que não foi mostrada, foi escondida, pode possibilitar a cada pessoa que está assistindo uma sensibilidade diferente, uma interpretação diferente, enriquecendo mais o filme, dando a impressão de que a gente pode sonhar, pode opinar, abrindo os olhos de quem assiste para os detalhes, entendendo que é uma caixa mágica que você abre e pode entender vários momentos de acordo com a vivência da pessoa. É essa mais uma possibilidade do cinema, trazer pra nós sensações, emoções. Dar outro olhar à visão do diretor”, avalia a mineira.

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Equipe IMA

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