Ainda pequena, antes de aprender a falar, a criança brinca. É quase o seu primeiro ato autônomo, simples e imaginativo. Como um rio caudaloso, esta vontade criadora deságua, percorre as pedras, irriga a terra, tornando vivo tudo o que toca. É energia que move, pulsa, aprende, ensina, compartilha, transforma, não morre, sua luz permanece dentro do ser. O brincar e as brincadeiras como travessias de autoconhecimento, construção de laços e fortalecimento comunitário conduziram a gravação do documentário “Inventário da Infância”, de Helder Guastti. As filmagens da história vinda de João Neiva (ES), selecionada pelo Curta Vitória a Minas IV, aconteceram de 29 de maio a 01 de junho.
A ideia do filme nasceu de uma inquietação afetiva do autor. “O meu desejo é ressignificar os olhares para as infâncias. Elas são múltiplas porque as crianças são múltiplas. A infância é o chão que a gente pisa pelo resto da vida. Quero mostrar como essa infância que, por vezes, foi vivida de uma maneira intensa e feliz e, por vezes, não, pela realidade familiar e social, como ela perdura e segue reverberando dentro de cada um de nós. Algumas pessoas tentam silenciar estas vozes, estas memórias, e outras tentam ressignificá-las para dar novas nuances. Então, o meu desejo, com a minha história, é fazer com que o expectador consiga se relacionar com o que ele está vendo e ouvindo no filme e com o que ele viveu”, destaca Helder.
O que veio antes
O professor das séries iniciais do ensino fundamental quer celebrar a multiplicidade de infâncias a partir das vivências da comunidade onde nasceu e cresceu no Bairro de Fátima, conhecido como Caixa D’Água. O território onde as cenas foram captadas se formou a partir da instalação do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Inicialmente, não seria um bairro, fora criado para abrigar os reservatórios de água. Sua família praticamente fundou o bairro porque seu avô foi o primeiro funcionário da empresa e morava com os parentes em uma casa pequena dentro do terreno da firma. Aos poucos, outras pessoas se instalaram na região, formando o núcleo populacional.
Seu avô era descendente de imigrantes italianos e sua avó era descendente de antigos escravizados e de indígenas. Os dois tiveram cinco filhas, uma delas, Rogéria Guastti, mãe de Helder. Com o tempo, a família passou a ocupar um quarteirão em frente à empresa, com a primeira casa na parte central e as moradias das filhas no entorno. O quintal abrigava muitas plantas. Tinha mangueira, goiabeira, cajazeiro. Com os pés descalços, junto com os primos, Helder subia em árvores, brincava de pique, tomava banho de chuva, escorregava na lama no campo de várzea, corria, andava de bicicleta e criava histórias.
“Como um contraponto com as brincadeiras, eu tinha momentos de introspecção. Era quando eu descia o morro para frequentar a biblioteca e me debruçar nos livros. Minha mãe também me contava histórias. Algumas eram narradas como ela as ouvia do avô dela, vovô Belo. Era sempre esta mistura do fabuloso, do fantástico com o folclórico popular. O que mais me encantava é que, às vezes, ela inventava, pegava uma história de referência e costurava outras coisas. Estas narrativas também são vivências brincantes”, conta Helder. Sua mãe é professora e o influenciou nesta paixão por compartilhar histórias.
Helder graduou-se em Pedagogia e começou a atuar em sala de aula tendo como base estruturante do trabalho a literatura e a afetividade na relação professor/aluno. Especializou-se em Alfabetização e Letramento, em Educação Especial, Educação Inclusiva e Psicopedagogia. Desde pequeno, sonhava em ter uma biblioteca, porém, não havia condição financeira. No decorrer dos anos, ele e a mãe montaram um acervo diversificado de qualidade. Como os dois também participavam muito da vida comunitária, a casa da família se transformou num espaço de apoio, convivência e articulação social dos moradores. Lá, funcionaram, por exemplo, as primeiras atividades da creche que se edificaria mais tarde no lugar.
“Sempre tivemos o costume de ter gente da comunidade em casa. O portão ficava literalmente aberto. Alguma criança precisava fazer um trabalho, ia lá em casa. Tinha criança que ia lá só para brincar com o cachorro, para ler livro comigo, para conversar com a gente. E nosso acervo, muito bonito e muito rico, por menor que fosse, ficava restrito aos meus alunos e aos alunos dela e a quem tinha mais este contato próximo. Veio, assim, um desejo de ampliar esta participação para que mais gente pudesse se beneficiar destas atividades”, conta Helder. Surge, em 2017, o “Confabulando Espaço de Leitura”.
Voltado para todas as idades, o espaço disponibiliza livros para empréstimo, abriga atividades de mediação de leitura, círculos de leitura e debate literário para adultos, aulas gratuitas de inglês e recebe visitas de escolas da educação infantil, dos ensinos fundamental e médio. Com a participação de voluntários, o projeto também realiza ações itinerantes com a disponibilização do acervo móvel para manusear e brincar e atividades de contação de histórias e mediação de leitura em ruas e praças de bairros de João Neiva, Ibiraçu e Aracruz. Hoje, a biblioteca é composta por quase três mil títulos. Durante a pandemia, o projeto social, mantido com recursos próprios, estendeu sua atuação a partir da criação de espaços virtuais de mediação de leitura, o que ampliou a abrangência da iniciativa para além das fronteiras do Espírito Santo.
“Eu acredito no senso de coletividade. A gente cresce com o outro, cresce na escuta. Quando estou lendo um texto, um livro e você faz suas colocações, está lendo esta obra comigo e a minha leitura já se torna outra. E a nossa leitura de vida vai virando outra porque, quando passamos a ter esta multiplicidade de olhar, de repertórios, vamos nos enriquecendo no sentido de experiências de vida e do prazer de olhar para aquela árvore lá fora e se emocionar. Eu acredito nesta mudança de perspectivas a partir de trocas, do olhar atento e da afetividade desta relação de cumplicidade mútua”, destaca o professor.
No ano de 2024, Helder conquistou o 1º Lugar no Prêmio Educador Nota 10, uma das maiores premiações na área da educação da América Latina, organizada pelo Instituto Somos, alcançando a primeira colocação em Inovação e Tecnologia e ganhando o reconhecimento como Educador do Ano do Brasil. Em 2025, o professor ficou entre os 50 finalistas do “Global Teacher Prize”, em decorrência do seu trabalho em sala de aula e de sua atuação social no espaço de leitura. Por conta desta premiação, foi convidado para uma imersão com outros profissionais de educação em Dubai. Hoje, o “Confabulando Espaço de Leitura” é certificado pelo Programa Cultura Viva do Governo Federal como Ponto de Cultura.
O filme
A vontade de experimentar e compreender diferentes linguagens impulsiona o amor de Helder pela leitura, a escrita, a música, a arte, a imagem e o cinema. A formação para as gravações aprofundou seu entendimento sobre a linguagem e as técnicas audiovisuais, dando-lhe novas ferramentas e conhecimentos. “Eu vinha tentando aprender esta linguagem audiovisual de maneira autodidata, com pesquisas próprias, mas muitas coisas foram elucidadas e iluminadas durante o curso. Eu não tinha um conhecimento formal, mas tentava alcançar este entendimento com as fotos que tento tirar, com os vídeos que tento fazer com as crianças, mas, agora, isso se aprofundou a partir da compreensão sobre a composição do enquadramento como uma arte com inúmeras camadas a serem pensadas de maneira técnica para expressar uma ideia e contar uma história para o expectador”, destaca o diretor.
“Inventário da Infância” propõe um mergulho afetivo e partilhado. Helder convidou crianças, adolescentes, jovens e adultos para um exercício livre de escuta de si mesmo e do outro sobre o brincar. O território formado pelos vínculos comunitários se incendiou com a provocação e abraçou a ideia do filme de promover um encontro intergeracional para resgatar memórias e construir novas vivências. “Brincar não é coisa de criança, é coisa de espírito livre, é de todo mundo. A criança tenta viver as paixões dela com liberdade. Por causa da rotina, da vida real, vamos deixando as nossas paixões de lado. Viver a sua paixão é muito do espírito infantil. É uma libertação poética”, reflete Helder.
Para captar tantas sensações de forma dinâmica e natural, o autor construiu um dispositivo fílmico fundamentado na observação e na imersão na vida da comunidade. Em alguns momentos, o espectador vai observar quem brinca, em outros, entrará e participará da brincadeira. E cada um fará a leitura desta experiência a partir do próprio caldeirão de experiências. Com o envolvimento e a dedicação da comunidade, o set de filmagem se transformou num quintal de emoções e sentimentos despertados pelas brincadeiras. O documentário se efetivou a partir das relações de troca e de atravessamentos.
Os atravessamentos
Rogéria Guastti nasceu e cresceu no bairro da Caixa D´Água. Elas e suas quatro irmãs brincavam no quintal grande cheio de árvores. No início, não havia vizinho. Aos poucos, outras famílias chegaram ao morro. Todos iam brincar em frente da casa dos Guasttis. Não existiam muros, nem divisões. O quintal se misturava com a rua, tudo virava brincadeira.
“A partir do momento em que foram chegando os vizinhos com seus filhos meio crescidos, começamos a brincar com eles de amarelinha, de pique-lata, pique-esconde, bolinha de gude, pipa, polícia ladrão. Escorregávamos no morro até na outra rua, brincávamos no meio do “colonhão” e nos arranhávamos todo. A gente fazia uma porção de coisas assim porque, na época da minha infância, não tinha tanto brinquedo. Nossas brincadeiras eram as mais divertidas possível porque não conhecíamos outros tipos de brincar. Nosso brincar era de muito movimento e muita autonomia. Quando chovia, a gente descia escorregando na chuva, nos cantinhos onde vinha aquela vala cheia de água suja. E brincávamos de escorregar até embaixo no morro. Às vezes, íamos na rua em dois ou três pra comprar alguma coisa para os pais e descíamos escorregando na ladeira. Quando chegava em casa todo enlameado, levava uns tapas, mas no outro dia a gente fazia tudo novamente”, conta Rogéria.
Para a professora, de 67 anos, brincar é fundamental. Por meio das brincadeiras se aprende a falar melhor, a somar, a diminuir, a se relacionar, a descobrir, a encontrar soluções pra os desafios. Segundo ela, o filme chega para dar maior visibilidade ao bairro cujas memórias atravessaram o tempo, entrelaçaram as antigas e as novas gerações e mantêm acesa a vontade de se relacionar em comunidade por meio da brincadeira, da arte e da cultura.
“Estes quatro dias de gravação foram maravilhosos. Foi um tempo em que estivemos com a comunidade toda unida tentando fazer o melhor, tentando mostrar como eram as brincadeiras, como são atualmente, e como aquele jeito de brincar permanece vivo na memória dos mais velhos, como é viver numa comunidade em que a gente tenta amparar o outro, amar, mostrar afeto, o carinho, ajudando aquele que precisa de um apoio moral, social e afetivo. As crianças estão maravilhadas, agradecidas com o filme, algumas até choraram na hora de se despedir porque a equipe de gravação demonstrou muito carinho, muito afeto. E as nossas crianças precisam muito disto”, destaca Rogéria.
Arthur Meireles Dos Santos Gomes ficou feliz em participar das filmagens e conviver com os profissionais do audiovisual. O menino tem 11 anos, cursa o 6º ano do ensino fundamental e nunca havia feito um filme. “Foi surreal! A primeira experiência minha de um filme, eu amei. Eu participei da produção, bati a claquete, tirei fotos dos bastidores, ajudei a escolher cenas e também gravei, apareci falando. Muito linda a história do filme, das brincadeiras. A parte em que aparecem as mulheres da terceira idade falando sobre como era a infância delas, eu chorei. A brincadeira que eu mais gosto, e que também aparece no filme, é a do pique-alto. É uma brincadeira muito boa”, conta o menino.
O estudante do ensino médio Guilherme Lyrio Dos Santos Gomes, 17 anos, fez numa das cenas a mediação de leitura do livro “Não Abra Este Livro, Ele Fede”, de Andy Lee. O jovem gostou de participar do documentário que mostra a alegria da infância vivida no bairro e de ver a comunidade integrada ao filme. Para o jovem, o maior desafio desta vivência no set foi agir normalmente com uma câmera, mas acredita que conseguiu executar a tarefa com naturalidade.
Guilherme gostava de brincar de tudo. As brincadeiras de pique eram suas favoritas. Desde pequeno, aprendeu com o espaço de leitura “Confabulando” a apreciar os livros, que também considera um jeito de se divertir. “O conceito dessa ligação entre as infâncias da geração de hoje e as das gerações antigas, de um só bairro, essa ligação com o cotidiano de cada um, que, mesmo sendo tempos distintos e com algumas práticas diferentes, mostra que a infância permanece a mesma”, avalia o estudante.
Gratidão
Helder acredita que o documentário vem com o desejo latente de oportunizar aos atores/apoiadores/equipe e espectadores um [re]encontro com a criança que foram, com as crianças que são e, possivelmente, com as crianças que se permitirão ser a partir do filme. Ao encerrar mais uma etapa de realização do curta-metragem, o diretor tem o coração repleto de gratidão pelo empenho de todos: sua mãe, a equipe, as crianças e a comunidade.
“Tenho muito orgulho de onde venho, de onde nasci e onde vivo, e sempre tive dentro de mim o desejo de falar mais sobre meu Bairro e, especialmente, sobre as pessoas que o fazem ser o que é. No Bairro de Fátima, carinhosamente conhecido por Caixa D’água [ou CDA], temos um senso de comunidade muito grande, um olhar coletivo para o fazer poético cotidiano que me emociona. Este senso de olho no olho, de escuta ativa, de afeto que transborda pelo toque, esteve muito presente nos dias de filmagem, tanto que eu, enquanto diretor do curta, me surpreendi positivamente, pois, o engajamento comunitário superou toda e qualquer expectativa que eu tinha para a feitura deste filme! O brincar educa e o afeto ensina. Todo o processo de realização do “Inventário da infância” tem me ensinado, mais uma vez, a olhar para dentro para poder enxergar de verdade o mundo à minha volta. Buscar ver as coisas com olhos de criança: despidos de marcas, estigmas ou preconceitos”, destaca Helder Guastti.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima






