Curta busca Zeppelin nos céus de Ibiraçu

Julyta amava contar histórias. Uma delas tão extraordinária como um sonho aconteceu nos anos 30. A menina aos seis anos de idade se aventurou ao lado dos irmãos mais velhos por matas e pastos e encarou uma montanha com a esperança de ver nos céus o Zeppelin, o dirigível de dimensões colossais, pioneiro da aviação civil, criado no início do século XX.

Mais de 90 anos depois, a história real vivida no Morro do Aricanga, em Ibiraçu (ES), será transformada em filme pelo historiador Geremias Pignaton, filho mais novo de Julyta Furieri. As cenas de “Julyta e o Zeppelin” foram gravadas de 24 a 27 de maio na cidade capixaba pelo Curta Vitória a Minas IV.

Os bisavós de Geremias, tanto por parte de mãe, quanto por parte de pai, saíram da Itália em 1877, atravessaram o oceano em busca de terras onde pudessem cultivar o alimento e sustentar suas famílias empobrecidas. Os imigrantes italianos chegaram à região de Pau Gigante, hoje batizada de Ibiraçu, para ocupar e desbravar terras desabitadas e produtivas, cercadas por florestas densas, compradas do governo imperial.

Julyta nasceu em 1928. Estudou até a quarta série do ensino primário. Gostava de ler e escrever. Casou-se aos 17 anos com Jacob Pignaton. Descendentes destas primeiras famílias de imigrantes italianos, os dois eram camponeses e tiveram seis filhos: Tarcísio, Arísio, Ana Maria, os gêmeos, Elias e Isaías, e Geremias. Jacob mais para frente começou a trabalhar com extração e beneficiamento de madeira.

Como era um filho temporão, nasceu cerca de nove anos após a chegada dos gêmeos, Geremias costumava fazer companhia para mãe em casa, tornando-se um admirador de suas histórias. Sua mãe era sua amiga.

“Mamãe era alegre, comunicativa, muito inteligente. Escrevia divinamente, lia que era uma beleza, falava bem. Tinha muito conhecimento. Fez um concurso para servente de escola e se aposentou como servidora estadual. Também era uma contadora de histórias. Eu era criança quando minha mãe me contava sobre o Zeppelin. Eu me imaginava indo com ela e os irmãos pelo caminho até o alto do morro. Ela contava, eu imaginava e vivia este sentimento de estar ali junto nesta aventura que nunca saiu da minha cabeça”, conta Geremias.

Uma história, um filme

Criado pelo conde alemão Ferdinand Von Zeppelin, o dirigível tinha uma estrutura rígida de duralumínio, media 236 metros de comprimento, 30 metros de largura e 33 metros de altura, alcançava uma velocidade máxima de 128 km por hora e uma altitude baixa de 200 metros do chão. O veículo transportava pessoas e cargas. A partir de 1930, passou a fazer rotas regulares entre a Alemanha e o Brasil, com escala em Recife (PE) e parada no Rio de Janeiro, na época, capital federal. O transporte acontecia na cabine ou gôndola abaixo da grande estrutura e possuía acomodações como sala de estar e jantar, dormitórios, cozinha, lavanderia, banheiros e sala de banho. Ao todo, o Zeppelin podia transportar 56 pessoas, sendo 36 tripulantes e 20 passageiros.

A esperança de ver uma máquina de voar tão incrível bem de perto mobilizou Julyta e seus irmãos Celestino, Hilário, Benito, Gertrudes, Brígida e Hélia. “Eu imaginava como não deve ter sido exaustiva a caminhada destas crianças acompanhadas de uma mula na época. Uma montanha íngreme com cerca de 582 metros de altitude, num terreno com vegetação, estradinhas no meio da mata, dos pastos, das plantações, entre animais domésticos, bois, cavalos, vacas”, imagina o diretor.

Geremias é servidor federal aposentado. Formado em Administração, Direito e História. É organizador do livro “Memoriário”, de José Dauster (2017). Publicou outros cinco livros: “Morangos de Sétimo Dia” (2019); “Os Missionário Combonianos em Ibiraçu e João Neiva” (2022); “Pau Gigante: a cidade de muitos nomes” (2022); “O Dia mais Feliz – Ibiraçu Campeão Capixaba de 1988” (2023); “O Berço da Imigração Italiana” (2025).

Geremias é apaixonado por filmes. Aos dez anos de idade já frequentava o cinema da cidade. Era uma sala pequena, com bancos de madeira, lotava todo final de semana, especialmente para assistir aos westerns, seu gênero preferido. A paixão pela sétima arte contagiou o filho Ângelo Pignaton. Os dois frequentavam as locadoras, compartilhavam gostos e trocavam impressões sobre os filmes de diferentes escolas cinematográficas e até fizeram juntos dois cursos de roteiro. Mais tarde, Ângelo ingressou no curso de cinema da UnB e passou a integrar o pai em suas produções universitárias. “Toda a minha experiência de cinema foi junto ao meu filho que é cineasta. Então, eu sempre o tive como guia. Eu havia publicado este texto sobre o Zeppelin num site quando nós dois comentamos sobre a possibilidade de transformar esta história em um curta. Toda a história dá um filme. É só alguém se propor a fazer”, enfatiza o diretor.

A lapidação

Houve muita revisão de roteiro. Era preciso se distanciar da escrita literária para livros que compunha a rotina do escritor para um mergulho na linguagem cinematográfica. A escrita para o cinema tem outro sentimento, pontua Geremias. A história se manteve a mesma, o roteiro ia se ajustando. A pré-produção trouxe inúmeras tarefas: selecionar e ensaiar os atores, preparar a casa antiga, buscar relíquias como objetos de cena, conseguir autorização para gravar na área de preservação, organizar a logística para transportar equipe, elenco e equipamentos até o alto do morro e planejar os cuidados para deslocamento da mula que carregaria a protagonista dentro de um balaio.

O filho Ângelo participou das filmagens e acompanhou o pai no decorrer de todo processo de transformação da história em curta-metragem. O cineasta conta que o pai tinha algumas noções sobre a linguagem e as técnicas audiovisuais por conta das experiências anteriores vividas juntos e a imersão formativa do projeto foi importante para que ele pudesse aprofundar o conhecimento e o entendimento em torno dos elementos básicos da criação fílmica.

“Meu pai é uma pessoa muito inteligente e organizada. Então, acho que ele gostou muito e se deu muito bem. E, depois desta imersão, ele continuou trabalhando no roteiro por muito tempo, começou toda a pré-produção, procurou as locações, achou os atores, pensou em toda a logística de produção, então, acho que foi um trabalho dele muito sério e muito bem pensado. Um trabalho muito bom tanto de criação e direção quanto de produção”, descreve Ângelo.

Um dos grandes desafios era dirigir crianças e adolescentes sem experiência com atuação. “Trabalhar o elenco com crianças foi enriquecedor. Foi muito rico observar a evolução dos meninos, contidos no primeiro dia, estranhando tudo aquilo, depois se soltando, e já tomando conta do set, dando opinião, entendendo os aspectos técnicos. Os meninos foram sensacionais. Eu fiquei surpreso de ver o desenvolvimento deles durante as filmagens”, conta Geremias.

Quem interpretou o Celestino foi Raul Carvalho Pignaton, 14 anos, estudante do 9º do ensino fundamental. “Foi uma proposta interessante, pois eu nunca tinha feito um filme antes e eu não esperava ser chamado. Meu personagem é o mais velho, é quem cuida dos outros irmãos. Decorei minhas falas e fiquei treinando em casa para que fosse o mais realista possível. Foi uma experiência nova pra mim. A equipe era de pessoas muito legais e profissionais e descontraídas também”, destaca Raul.

Cecilia Pignaton Loureiro, 14 anos, estudante do 9º ano do ensino fundamental, interpretou a Gertrudes, irmã mais velha e a responsável pela Julyta a maior parte do tempo. “Nunca fiz um filme antes. Eu me preparei através dos ensaios com o elenco, da leitura e interpretação do roteiro. Achei encenar muito legal, cansativo, mas muito legal. Me lembrou um pouco dos palcos porque sou bailarina e ginasta. O mais desafiador foi ficar sempre descalço por conta do mato e dos bichinhos. O que eu mais gostei foi de interpretar a minha personagem. E a história é interessante até porque fala sobre a minha bisavó”, conta a estudante.

Gabriel Baioco Quaresma, 13 anos, estudante do 8º ano do ensino fundamental, também aceitou atuar pela primeira vez num filme para viver o papel do Benito. “Eu gostei muito quando recebi o convite para fazer o filme. Eu me preparei lendo minhas falas para saber na hora como interpretar o personagem. Achei muito legal fazer o filme, gostei muito da organização e de todo o pessoal da equipe”, destaca Gabriel.

Para Ângelo, o maior destaque da maratona de gravação foi a relação estabelecida antes pelo pai com os atores. “Eu senti a confiança dos atores que não tinham nenhuma experiência até então com atuação. Acho que eles estavam muito confortáveis, gostando muito, se divertindo muito com as gravações. Acho que isso foi essencial. Meu pai conseguiu fazer muito bem isso e ganhar a confiança dos meninos. Foi bacana ver o meu pai feliz com todo o processo, vendo o filme acontecer, principalmente, nas gravações. Ele ficou muito feliz e isso me deixou muito feliz também”, destaca o cineasta.

A realização

Elenco e equipe enfrentaram um desafio a mais nesta aventura de quatro dias de filmagem. Isso porque havia no set, em grande parte das gravações, a mula, o que exigiria um maior esforço para transportar o animal de um lugar para o outro. Apesar das preocupações da equipe, Zuleide, apelidada de Pasolina no filme, era mansinha e atuou com tranquilidade. A mula foi emprestada pelo proprietário de um haras, Antônio Celso Pasoline. A participação e o envolvimento dos amigos, vizinhos e parentes contribuíram para a realização deste processo coletivo e comunitário de fazer um filme. Destaque para a beleza e delicadeza dos figurinos de época costurados por Mercedes Maria Ricatto Delunardo, prima do diretor, aos 90 anos de idade.

O clima sem chuva e a luz natural também contribuíram para a boa execução das cenas externas que exigiram passagens por matas e pastos da região. Para deslocar a equipe composta por 14 pessoas até o alto da montanha foram necessárias três caminhonetes preparadas para trafegar em terreno íngreme e acidentado. “Um outro detalhe foi a gravação em preto e branco. Desde que imaginei o filme, pensei em preto e branco. O fotógrafo, o Mazza, também gostou da ideia, aprovou, e filmamos assim, aproveitando a luz maravilhosa da natureza. A fotografia vai ficar muito boa!”, pontua o diretor.

Julyta partiu num Dia das Mães. Despediu-se como um passarinho. Silenciosa e sem dor. Viveu 83 anos. Sua partida comoveu a comunidade que a amava por sua alegria, solidariedade e dedicação aos doentes. Helena Pignaton Bertazo, de 7 anos, interpretou a protagonista. “Foi legal receber o convite de fazer o filme. Só que chorei porque eu estava com vergonha. A Julyta no filme age com alegria. Ela anda na mula pra subir na montanha e conseguir ver o Zeppelin que é um avião antigo e grande. Achei legal fazer o filme. O mais difícil foi andar na mula porque eu estava com medo”, conta a menina, bisneta de Julyta, estudante do 2º ano do ensino fundamental.

A enfermeira Lívia Roni Pignaton, mãe de Helena, acompanhou a filha e a sobrinha Cecília nas gravações. “Helena ficou muito empolgada e interessada pela história. Eu me empolguei também. Fiquei com um pouco de medo porque ela iria andar na mula, no balaio, e subir um morro que é muito alto e inclinado. Embora subisse com segurança, fiquei um pouco ansiosa. Mas a gravação, tudo o que aconteceu me surpreendeu. Foi uma experiência muito positiva. Achei o ambiente agradável, fomos a lugares muito bonitos”, relata Livia, neta de Julyta.

Os dias de filmagens misturaram trabalho, cansaço, intensidade e emoção. “É muito grande o esforço da realização. Vamos louvar todos os que produzem cinema, que fazem filme com dificuldade porque é um trabalho muito grande. Também a fantasia está muito presente nisto tudo. A fantasia que me proporcionou o filme de ter a sensação de pegar a minha mãe criança no colo. Isso só o cinema, o teatro, a arte possibilitam. A equipe do Instituto Marlin Azul, muito competente, muito boa. Então, foi uma experiência enriquecedora. O filme está no forno. A expectativa é que saia lindo e saboroso”, celebra Geremias.

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Mariana de Lima

Álbuns das gravações