Histórias se tocam, se misturam e se conectam

O cinema é o lugar mágico das histórias. E as histórias tocam as pessoas. As histórias movem as pessoas. Para contar a trajetória de uma menina do interior apaixonada por aprender e desvendar o mundo, a educadora e comunicadora Elisangela Bello mobilizou um elenco de mulheres cujas vidas se tocam, se misturam e se conectam.

Baseada nas memórias de infância da autora, “Lia: Entre o Rio e a Ferrovia” mostra três diferentes tempos da vida de Lia (infância, adolescência e maturidade). A personagem ama ler e ouvir histórias e sonha em ultrapassar os limites da cidade marcada pela presença do rio e da ferrovia. Ana Lara Lenk Freitas, 9 anos, recebeu com surpresa e alegria o convite para interpretar a Lia na infância. A estudante já havia atuado na escola em algumas peças teatrais e em um vídeo publicitário. Encarar a interpretação em um filme era a primeira vez. “Eu resolvi participar porque foi uma oportunidade muito boa, incrível e eu não podia perder”, conta a estudante do quinto ano do Ensino Fundamental 1. 

A menina conta que a pré-produção envolveu uma série de reuniões, ensaios e bastante preparação para as gravações. Assim que o roteiro chegou em suas mãos, Ana Lara começou a estudar a personagem e teve o apoio da mãe nos ensaios em casa. “Eu achei muito legal conhecer a história da Elisangela porque ela foi minha professora. E eu nunca soube da história dela, que foi de tantos perrengues, tantas tristezas, mas muitas vitórias. Foi muito emocionante poder participar deste filme”, avalia a estudante que se sente parecida com a personagem quanto à inteligência e ao comprometimento com a escola.

Melina Lenk Freitas, irmã de Ana Lara, assumiu o papel de Lia na adolescência. Estudante do segundo ano do curso técnico de Agropecuária do Ifes de Itapina, em Colatina, a garota de 16 anos também se surpreendeu com o convite porque havia atuado apenas em peças da escola e da igreja. “Eu resolvi participar porque é um convite irrecusável. Quem recusa o convite para participar de um filme? É um sonho”, declara a jovem que se inspirou no jeito de ser da autora da história, sua professora no passado, para construir a personagem. “Os ensaios foram muito bons. A gente aprendeu, aperfeiçoou e deu muito certo. As gravações foram muito boas. Foi legal poder andar de trem. Acho que essa foi a minha parte preferida para gravar”, declara a adolescente.

Professora do quarto ano do Ensino Fundamental 1, Tânia Reis, de 54 anos, se sentiu lisonjeada ao receber o convite para interpretar a mãe de Lia. Tania e Elisangela estão sempre juntas porque exercem o magistério na mesma instituição de ensino. Apesar de ter participado de vídeos menores, tanto na escola quanto na igreja, essa é a primeira vez de Tânia num set de filmagem. A inspiração para compor uma mulher cuidadosa e preocupada veio da própria experiência na vida real como mãe de duas meninas e como educadora de centenas de estudantes.

Para a professora, os ensaios foram demorados e acabaram sendo uma boa preparação para os desafios das filmagens. “Não estamos acostumados a repetir muito as cenas. Numa gravação existem muitos detalhes que a câmera tem que captar, tem a questão da luz e o som também pode ter interferência. Eu fiquei encantada com o profissionalismo da equipe e com a atenção aos mínimos detalhes. A gente pensa que é simples, rápido, mas, na realidade, não. Dá muito trabalho. Eu até brinquei com o pessoal que ser atriz cansa, melhor continuar como professora. Cada um com a sua vocação”, brinca Tânia. Segundo ela, as gravações foram maravilhosas e contaram com a dedicação de uma equipe boa que deixou o elenco bem à vontade para atuar e buscar a melhor expressão para cada cena. E uma curiosidade: Tânia conseguiu conhecer o interior de uma casa bem antiga que desde criança observava de fora no caminho para a igreja. O imóvel foi selecionado como locação pra abrigar as cenas da residência da personagem.

Uma experiência inesperada

“O que eu senti ao passar de professora aposentada a artista de cinema?” Assim começa o depoimento da professora Tânia Maria de Souza Tabosa sobre o convite de integrar o elenco do filme. Inicialmente, ela faria parte da cena em que a personagem adolescente sonha com suas antigas educadoras dentro de uma ciranda de acolhimento e compartilhamento de dons no meio do pátio da escola. A professora amou a ideia da cena e a chance de reencontrar antigas colegas.

“Eu comecei nos ensaios fazendo a ciranda com as minhas colegas de trabalho de 30, 40 anos atrás e foi um reencontro. Moramos numa cidade pequena mas, por incrível que pareça, longe uma da outra, praticamente, não nos encontramos. Somente conseguimos nos ver quando tem algum evento muito especial na cidade porque, para cada uma de nós, resta agora trabalhar nas igrejas que frequentamos nos bairros onde residimos. Então, na verdade, depois da pandemia, praticamente, a gente não se encontrou. O filme trouxe essa oportunidade maravilhosa!”, relata Tânia Tabosa.

Entre um ensaio e outro, a professora é convidada para interpretar um novo papel na história, a Lia numa fase mais madura, quando retorna à cidade acompanhada da neta após uma viagem de trem. O desafio a apavorou e ela pensou em desistir. Porém, incentivada pela diretora do curta, a professora acreditou no próprio potencial de fazer algo diferente. Tânia Tabosa participou da caracterização da personagem ao sugerir uma avó com um espírito mais jovem e mais empolgado diante da vida.

“Eu não quis fazer uma velhinha muito velhinha. Me sugeriram uma caracterização, um coque, mas não, eu quis ser eu porque também já sou avó. Eu tenho três netinhas e sou muito feliz em ser avó. Eu partilho e bebo de toda a energia delas, de toda a iluminação que elas trazem pra minha vida. Então, sou uma velhinha mais num tempo novo, que não se deixa envelhecer por dentro. Converso com as meninas tudo o que tem que ser conversado, partilho a minha fala, os meus passeios, gosto, amo estar com elas. Então, tudo isso me fez ser uma vovó do meu tempo, do meu jeito. Não quis nada que caracterizasse uma pessoa já no fim da vida, com tanta tristeza, não, eu preferi ser eu porque é assim que estou vivendo a minha velhice, estando muito bem com ela, vendo coisas novas, interessantes, passeando, tendo a vida que eu pedi a Deus pra depois de aposentada”, relata Tânia Tabosa.

Existe o cansaço, a necessidade de repetição das cenas, as dificuldades pessoais para vencer, mesmo assim, ela gostou da experiência e se emocionou com a história do filme, pois a fez revisitar o próprio passado. Uma das conexões foi a ligação da história com a ferrovia. A professora menciona a afetividade muito grande com a antiga companhia aonde seu pai trabalhou por quase quarenta anos. Da mesma forma, o sogro, o filho, e outros membros da família também se dedicaram à empresa.  

“A história me fala muito ao coração porque é uma história muito emotiva. A Lia está saindo de casa, deixando a família, indo estudar fora, assim como aconteceu comigo. Eu fui fazer história na Católica de Belo Horizonte e deixei a minha família em Aimorés. Foi uma dor tão grande essa primeira separação de uma menina de 17 anos, acostumada com uma cidadezinha pequena. De repente, ela é levada pra uma cidade grande aonde tudo é muito novidade, muito intenso, então, eu me senti na própria história do filme”, conta a professora aposentada, especializada em História Antiga e Medieval.

Missão cumprida

As gravações começaram na quarta-feira (22/03) e terminaram na sexta-feira (24/03). Os dias foram corridos, intensos e cheios de ansiedade e emoções. “Foi uma experiência muito gostosa de participar. Eu estava muito tensa por uma série de questões, querendo também que desse muito certo e tentando reunir na minha mente todos os elementos que a gente tinha conseguido juntar, como os objetos de cena”, conta Elisangela.

A roteirista, produtora e diretora destacou o trabalho conjunto e colaborativo deste processo coletivo, organizado e coordenado em que todos se ajudam mutuamente para que tudo esteja bem dentro e fora do quadro. A possibilidade das chuvas rotineiras de março a preocupou na pré-produção, no entanto, os dias foram exuberantes de sol e calor. As filmagens aconteceram em diferentes locações da cidade, inclusive, dentro do trem de passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas ao longo de um pequeno trecho do percurso cotidiano de ir e vir. A equipe e o elenco embarcaram em Aimorés e seguiram viagem até Resplendor para captar uma das cenas do curta-metragem.

“Algumas coisas tiveram um pouco mais de dificuldade, mas tivemos surpresas muito favoráveis, como a cena do trem, um dos trechos mais legais, em que conseguimos coincidir um cenário muito bonito com uma atuação legal da Melina, quem faz a Lia na fase adolescente. Esse trechinho vai ficar comigo no coração, me lembrou a entrada da gente no trem (eu, minha mãe e meus irmãos), uma coisa que marcou muito minha infância, pois viajávamos o tempo inteiro de trem. Então, são situações que trazem uma memória afetiva muito positiva e marcantes. Eu espero que esse sentimento seja despertado em outras pessoas. Por isso, Lia não é só um filme sobre as minhas memórias de infância, mas é um filme para as infâncias, de uma maneira geral, de quem vive próximo à ferrovia”, ressalta Elisangela Bello.   

Texto: Simony Leite Siqueira

Ficha de Inscrição

Assine

* indicates required