Filme resgata passado das relações sociais vivenciadas por imigrantes italianos em Ibiraçu

O descendente de imigrantes italianos Wilson Maioli contava histórias sobre como viviam as antigas famílias dos seus antepassados que desembarcaram em terra brasileiras em busca de um recomeço. Eram relatos dos mais velhos, causos tirados do cotidiano das relações sociais, lembranças de um e de outro, memórias guardadas, esmaecidas pelo tempo, repassadas de geração em geração. Histórias de todo tipo, algumas trágicas, outros sobrenaturais e muitas bem-humoradas. Uma delas começou a ser transformada em filme pelo professor e policial federal Otávio Maioli, morador de Ibiraçu (ES), neto de Wilson, através do projeto Curta Vitória a Minas III.

As gravações começaram na sexta-feira (28/06) e prosseguirão até domingo (30/06) em diferentes localidades do município, entre elas, os bairros São Cristóvão, Parque Alegre, Cascata, Santo Antônio e o distrito de Pendanga. A ficção “As Cercas” resgata fragmentos históricos de um conflito de fronteiras ocorrido no início do século XX envolvendo duas famílias italianas vizinhas. Como não concordavam com os limites entre as propriedades, os patriarcas de um lado e de outro criaram uma rivalidade marcada por discussões sem solução. Certa vez, um deles, aproveitando a ausência do vizinho, construiu uma cerca, invadindo o terreno ao lado. Da mesma forma, o vizinho construiu uma outra cerca, entrando nos limites da propriedade alheia.  

“Meu avô me contou esta e muitas outras histórias. Eu sempre fui muito apegado a ele e a minha avó Velina. As histórias vieram depois que saí pra estudar. Quando ficava muito tempo fora, eu voltava pra visitar meus pais e visitava meus avós também. Geralmente as visitas aconteciam pela manhã: eu sentava, tomava um cafezinho, comia algumas coisas feitas pela minha avó e conversava com meu avô”, relembra Otávio.

Vovô Wilson lhe contou que este espaço de cinco metros entre as cercas criou um caminho de passagem para os tropeiros que viajavam entre as cidades para transportar mercadorias. E, mais tarde, o trecho serviu de referência para a construção da ferrovia e, depois, para a rodovia BR 101.

“Quando meu avô me contou esta história, ele fez uma vinculação com o trajeto dos tropeiros que começaram a frequentar o comércio do meu bisavô, Ernesto Maioli. À rigor usavam esta estrada como referência. Não sabemos do ocorrido de fato, mas foi uma referência que se criou. Logo depois daquilo se começou a ter um fluxo de pessoas na região. Esta história foi sendo contada um para o outro ao longo do tempo”, relata Otávio. Hoje não é possível identificar a localização das antigas cercas e nem quais foram as duas famílias envolvidas no impasse. No entanto, a partir de pesquisas de documentos e dos relatos dos mais antigos, incluindo do historiador da região, Geremias Pignaton, estes tipos de conflitos de terras se tornaram muito comuns nesta época. 

A ideia do autor não é resgatar os acontecimentos. A intenção é ficcionar uma história com elementos inspirados nas relações familiares e comunitárias, no jeito de ser e de viver das antigas comunidades que ajudaram a fundar a cidade. “Estamos contando a história de uma forma cômica, como o meu avô me contou, pois eles achavam isso mais engraçado do que trágico. A intenção é criar as situações como aconteciam antigamente, como fluíam e se emaranhavam na base da conversa”, destaca o diretor. 

Wilson Maioli faleceu em 2012, aos 83 anos. Guardava muitas histórias ouvidas do pai, Ernesto Maioli, que tinha apenas dois anos de idade quando, no final do século XIX, atravessou o Oceano Atlântico vindo da região da Lombardia, na Itália, para viver no Brasil. Os pais de Ernesto não conseguiram chegar ao novo continente, pois morreram durante a longa viagem de navio, deixando o menino e sua irmã de seis anos órfãos. O bebê foi adotado por uma família e a pequena menina por outra e os dois cresceram em cidades separadas até se reencontrarem décadas mais tarde. O menino e sua nova família estabeleceram a vida em Ibiraçu. O pequeno Ernesto cresceu, prosperou, formou família e montou um comércio onde ouvia muitas histórias vividas no lugar ou trazidas pelos viajantes.

Filho do comerciante italiano, Wilson Maioli permaneceu na região como lavrador, também constituiu família e um de seus filhos, o biólogo e professor José Maioli, é pai de Otávio Maioli. O roteirista, diretor e produtor de “As Cercas” fez bacharelado e licenciatura em Química, tem mestrado em Engenharia Ambiental, ambos pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e doutorado em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Está no segundo mandato parlamentar na Câmara de Vereadores de Ibiraçu e atua ainda como professor de Química e Inglês na rede pública estadual. Ao final do mandato, no final deste ano, assumirá o cargo de papiloscopista conquistado em concurso público para Polícia Federal.

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Gustavo Louzada

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