A natureza, o espiritual e o resgate de raízes ancestrais na direção de arte de T-Rex

Quando a ideia de um filme surge na mente de um roteirista tudo começa com uma sensação, um desejo, um sentimento, uma emoção, uma memória. Tudo ainda é mistério como um tesouro escondido a ser descoberto até as camadas mais profundas. Ao longo da realização de uma obra cinematográfica, a ideia articulada em palavras pelo roteiro, como um mapa, vai se desdobrando em novas ideias, como se revelasse um novo segredo a cada momento.

Uma das atividades da realização audiovisual responsável por reger essa orquestra de revelações é a direção de arte. Ela determina o conceito visual da obra e aparece nos cenários, no figurino, nos objetos de cena, na maquiagem, e em entre outros componentes materiais e simbólicos selecionados para dar vida ao filme.

A ficção “O T-Rex e a Pedra Lascada”, que tem roteiro, produção e direção de Luan Ériclis, apresenta como elemento central de direção de arte a criação feita pela própria natureza. As gravações começaram na sexta-feira (17/03) e prosseguirão até segunda-feira (20/03), nas localidades de Mundo Novo e Crubixá, na área rural de João Neiva (ES).

Um dos primeiros desafios das gravações externas é o clima. O dia amanheceu chuvoso, porém, não desapontou o diretor. “Do ponto de vista técnico, a gente precisa de uma produção pra conseguir filmar nessas condições sem danificar equipamentos e sem prejudicar a equipe em todo e qualquer sentido. Do ponto de vista da direção artística, a chuva compõe o universo do meu filme que trata do ecossistema saudável, onde rio e mata são umbilicais e se relacionam de múltiplas formas. O ciclo da água, a chuva, os dias nublosos são parte desse ser vivo complexo que é a natureza. E desafios descarregam adrelanina que é fundamental para uma aventura num universo com dinossauros e pedras lascadas”, explica Luan.

Os elementos naturais

O cenário natural de cores, formas, texturas e vibrações foi escolhido pra contar a história de três meninas que se aventuram na mata e no rio para despertar o espírito guardião dos dinossauros capaz de conceder poderes inimagináveis. Muitos elementos utilizados como adereços para compor o figurino das personagens também foram coletados no meio ambiente. As folhas, flores e cipós costuram essa relação das personagens com os seres da floresta e do rio.

A elaboração visual do filme vem sendo construída com gentileza através da pesquisa visual e da percepção e da vivência dos participantes. Um dos convidados para contribuir com o processo é o artista plástico, Itamar dos Anjos, baiano de Caravelas, mestre da cultura popular reconhecido pelo Ministério da Cultura e da Diversidade. O artista é responsável pelo Núcleo de Dança do Movimento Cultural Artimanha e pelo Grupo Afro-indígena de Antropologia Cultural Umbandaum, fundado em 1988. O mestre trouxe para o universo do filme uma estética capaz de valorizar e fortalecer as identidades negra e indígena.

“O primeiro dia de gravação foi bem legal porque pela manhã gravamos a cena de uma criança que fazia o espírito da mata. Isso pra mim foi muito forte, muito bom, porque fiquei à vontade para produzir a personagem como fazemos em Caravelas. A gente busca referência dos povos indígenas do Brasil, de povos nativos da África, pois temos esta ligação muito forte na relação genética, familiar e cultural, no extremo sul da Bahia”, conta Itamar.

A espiritualidade

Segundo o artista plástico e professor de dança afro-indígena, as referências à cultura e às religiões de matrizes africanas se revelam neste cenário natural. “Estamos gravando na raiz de uma gameleira que tem um significado muito forte porque simboliza o orixá Irôko, o senhor do tempo nos cultos afros. O cenário já estava pronto. Então, só compusemos com alguns elementos, como folhas de bananeira, para dar um toque de um altar, um trono, onde se senta uma rainha, uma entidade”, detalha o mestre.

Assim como Irôko, guardião da ancestralidade, representante dos antepassados, traz a força da raiz de uma gameleira que abraça tudo, os elementos visuais e os dons de outras divindades se juntam para fortalecer a história. Um deles é Oxóssi, o protetor das florestas, o astuto, sábio e ligeiro caçador, deus do conhecimento, que chega para lembrar da necessidade de se respeitar e proteger o meio ambiente, uma das mensagens que o curta-metragem quer despertar.

“O filme está muito radiante! O que compõe toda a estética, tanto da personagem, quando do cenário, é tudo o que vem da força que nos mantém, essa força ancestral, esta força indígena, essa força africana que a gente tem vinda da espiritualidade destes povos. E usamos muito isto no nosso contexto artístico. É perfeito esse filme de Luan porque ele busca essa ancestralidade, isso que está dentro de cada um de nós para colocar em cena. E isso é muito importante”, analisa Itamar.

Este conjunto de elementos artísticos repletos de significação e pertencimento se completa com Nanã, a orixá da criação, e com Oxum, soberana das águas dos rios e das cachoeiras, deusa da beleza, da fertilidade, das riquezas materiais e espirituais e da maternidade. Na parte da tarde, no primeiro dia de gravação, a equipe gravou as lavadeiras nas corredeiras do rio. As personagens são interpretadas por Adriana Damázio e Luciana Damázio, respectivamente, mãe e tia de Luan.

“As senhoras em cena trazem esse aspecto das mulheres que vão pra guerra, pra luta, pra batalha, que estão sempre na lida. Trabalhamos a estética dos tecidos coloridos para dar mais volume e movimento para a cena porque havia muito o cinza das pedras. Usamos os panos como um elemento fundamental das lavadeiras que usam esse ofício para buscar o alimento para seus filhos. Nossas avós, muitas mães, foram lavadeiras, criaram seus filhos e viveram essa função à beira do rio”, detalha o artista plástico.

A identidade

A composição estética da ficção “O T-Rex e a Pedra Lascada” feita de um jeito coletivo e colaborativo revela nuances do processo de construção da própria identidade do diretor. “Quando eu me descobri negro e me encontrei dentro da sabedoria das ciências e das tecnologias afro-centradas, percebi que existiam deuses que eram mais semelhantes a mim, que tinham a mesma cor da minha pele, que foram reis, que foram rainhas, que tinham aspectos humanos, então, eram deuses que também erram, que também são caóticos, que estão sempre neste espectro de errar e acertar”, conta Luan.

Ao final da tarde, na sexta, a equipe gravou as crianças Maitê e Adrian, sobrinhos do diretor, filhos da sua irmã do meio, Adrielly Damázio, falecida no ano passado. A cena revela a busca por uma presença de quem partiu e marca os vínculos que não se quebram mesmo com a morte. A estética corporal mais simples e o branco e o azul usados no figurino dos pequenos trazem mais suavidade e leveza à composição das personagens. Mais uma vez, a própria força expressiva dos elementos da natureza na cena ajuda a construir o que se pretende contar no cinema.

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Gustavo Louzada

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