A jornada de construção de uma personagem em Baixo Guandu (ES)

A enfermeira Valquíria Gabler Pires saía do trabalho na capital capixaba quando retornou uma ligação perdida no seu telefone celular. Era a amiga Jaslinne Pyetra Matias dos Santos lhe perguntando quando visitaria a família no interior, em Baixo Guandu, pois tinha um assunto para conversar pessoalmente.   

Valquíria e Jaslinne convivem desde a infância. Nascida em Aimorés (MG), a profissional de saúde morou em Baixo Guandu (ES) até os 18 anos. Mudou-se nesta idade para Vitória para cursar Enfermagem na Universidade Federal do Espírito Santo. Apaixonada pela área materno-infantil, atua como enfermeira e doula na região metropolitana e, de tempos em tempos, visita a família na cidade aonde cresceu. Passaram algumas semanas até a enfermeira descobrir que seria convidada para atuar em um curta-metragem pela primeira vez.

“Jaslinne me explicou a ideia do filme, quem eu interpretaria. Eu falei assim: bora, eu quero te ver feliz, eu quero te ver bem. Se vai ser bom pra você, estou dentro. Não preciso pensar duas vezes não. Você vai me falando, vai me mostrando como fazer e vamos juntas. Eu não largo a sua mão e você não solta a minha”, relembra a enfermeira de 23 anos de idade.

O convite inesperado para interpretar a protagonista na ficção “Um Ponto Rotineiro”, selecionada pelo Curta Vitória a Minas II, levou Valquíria de volta a um tempo cheio de experimentações e diversão durante as apresentações teatrais da escola. Desde pequena costumava imaginar histórias. Narrava textos, interpretava personagens, gostava de compor músicas e cantar. Ainda guarda em casa o vídeo de uma apresentação em que interpreta uma formiguinha e um videoclipe em que canta uma paródia de sua autoria.

Foram diversas leituras e estudos do roteiro para entender e vivenciar uma nova personagem em diferentes situações dramáticas e para compor cena por cena da ficção escrita pela amiga. Como mora em Vitória, a 180 quilômetros de Baixo Guandu, não participou dos encontros do elenco, o que a levou a ensaiar sozinha em casa. Ao mesmo tempo, aumentou sua carga horária de trabalho para folgar nos dias das gravações. 

A depressão

“Um Ponto Rotineiro” conta a história de Laura, uma garota aprisionada em pensamentos acelerados e confusos que passa o dia a dia de modo distante, sem interação e conexão com o mundo ao redor.

“Eu interpreto uma pessoa que não mostra tanto os sentimentos, mas que, por dentro, está uma bagunça, está desorganizada, e precisa encontrar um rumo para a vida. A personagem vive sentimentos intensos: são brigas com ela mesma, com suas personalidades diferentes. Ela quer ser uma coisa, mas não consegue porque a cabeça dela não para um só segundo”, descreve a atriz.

O desânimo, a baixa autoestima e a perda da vontade de viver são emoções vividas por pessoas que sofrem com a depressão. Como profissional de saúde, Valquíria teve a oportunidade de trabalhar em equipes multidisciplinares voltadas para o acompanhamento e o tratamento de pacientes com distúrbios mentais. Essa experiência a ajudou a descobrir e a compreender os traços psicológicos, emocionais e comportamentais da personagem que precisava aprender a interpretar.

“A Laura está desmotivada de fazer as coisas, de acordar, de ir ao trabalho, de conversar com as pessoas. Ela quer ficar em paz, quieta no mundo dela. Eu já trabalhei com pacientes depressivos e a gente conhece quando a pessoa não está bem, mesmo ela tentando disfarçar. Tentei me lembrar destes pacientes que pude acompanhar para sentir o que a personagem estava sentindo”, relata Valquíria.

Construir uma personagem através do corpo, da voz e da emoção exige da atriz ou ator um exercício cuidadoso, profundo e permanente de compreensão das camadas complexas de um ser humano. “Ao mesmo tempo em que a Laura sente todos esses sentimentos de desânimo, de não querer fazer as coisas, ela quer ser vista por alguém, quer ser notada, mas, mesmo assim, as pessoas não percebem que ela não está bem”, acrescenta.  

As conexões

No decorrer da jornada de Laura acontece um mergulho interno e um encontro com a sua criança interior. A protagonista mais nova é interpretada por Helena Pereira da Cruz, prima da diretora. A menina de 8 anos, estudante do 3º ano do ensino fundamental, assim como a sua versão mais madura, encarou um set de filmagem pela primeira vez. Uma das cenas mais emocionantes deste encontro foi encenada dentro de uma piscina.

“Foi nesta cena que tive a minha primeira interação com a Laura criança, vivida pela Helena. Eu expliquei como poderíamos fazer para criar um vínculo e uma conexão legal. A gente conseguiu criar esta relação e foi incrível”, conta Valquíria que precisou superar o medo de entrar em uma piscina.

Helena ficou encantada com o set de filmagem. Ela conta que tinha assistido numa rede social a um vídeo sobre como são feitas cenas em cromaqui (Chroma key). Agora, a partir da experiência do projeto, ficou surpresa ao ver e participar de cenas gravadas em cenários reais ao ar livre. “Eu aceitei gravar porque eu nunca tinha gravado um filme e um roteiro e gostei muito”, comenta a atriz mirim, filha de Francismar Gomes da Cruz e de Joanne Gomes.

Para Valquíria, a experiência a fez se redescobrir como atriz e como ser humano. “Cada técnico, profissional, produtor que faz parte deste filme traz sentimentos que vamos levar para o resto da vida. Eu acho incrível a energia destas pessoas ao nosso redor, nos dando aquela sensação de dever cumprido. Pensei várias vezes em como seriam as gravações. O medo e a ansiedade eram grandes. Será que vai dar certo? Está dando mais que certo. Gostei muito! Foi maravilhoso!”, conclui a atriz, enfermeira e também modelo fotográfico. As gravações de “Um Ponto Rotineiro” começaram na quinta-feira (02/03) e se encerraram no domingo (05/03) em Baixo Guandu.

Fotos: Gustavo Louzada

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