O cinema é uma arte, uma técnica, uma tecnologia. Fazer uma obra audiovisual envolve um conjunto de regras, comandos e fórmulas. Ao mesmo tempo, o filme é um objeto produzido pelo trabalho humano. A própria existência é um ato em permanente criação, com suas surpresas, imprevistos, reelaborações, atravessamentos. Durante o curso audiovisual em preparação para a produção dos filmes, as autoras e autores das histórias selecionadas pelo Curta Vitória a Minas IV foram convidados a exercitar novas formas de olhar e de escutar. O módulo “Por um Cinema Manual”, que se desdobrará em cinco encontros, tem a orientação das professoras e realizadoras Cintya Ferreira e Mariana de Lima, que nesta entrevista dão detalhes sobre as infinitas possibilidades de uma vivência para além do filme.

CVM IV – Desde a sua criação, o cinema é uma combinação de arte e tecnologia. Qual a proposta do cinema manual?
Mariana – O cinema manual propõe uma inversão que tá no próprio nome. Se a gente troca as palavras de lugar, vira um manual de cinema, que é um conjunto de regras e fórmulas de como fazer um filme. O cinema manual seria a contramão disso, seria uma aposta na criação como um processo artesanal, cheio de surpresas. Estamos chamando de manualidade, mas são todos os sentidos, o olhar, a escuta, o tato, o jeito de prestar atenção. A manualidade chama atenção pra a tecnologia humana, antes de começar a pensar em câmeras, gravadores, iluminação. É o cinema como gesto, como artefato, fabricado pelas nossas mãos.
CVM IV – Num tempo dominado pela máquina, como resgatar as formas artesanais de criar, em especial, como construir um cinema dos sentidos?
Cintya – O cinema é anterior à tecnologia cinematográfica. Tem a ver com olhar, com como você faz um recorte de mundo, como conta a sua história, como decide fazer de uma forma ou de outra. Tudo isso é o cinema antes de virar um filme. Por exemplo, no material que entregamos para os alunos, fizemos uma moldura de papel, como forma de pensar esse enquadramento, esse recorte de mundo, que não precisa ser gravado, pois tem relação com o exercício do olhar. Chamar de cinema uma coisa anterior, um modo como nos relacionamos com o outro, como nos relacionamos com a nossa comunidade, como filmamos a nossa rua, os nossos pais. Se queremos filmar muito de longe, ou se quero chegar muito perto. Tudo isso são escolhas estéticas. Por exemplo, se você é muito íntima de uma pessoa, como traduzir esta intimidade pra imagem? Às vezes não é sobre onde colocar a câmera, mas como conversar com a pessoa.
Mariana – Esta coisa da criação mediada por tecnologia, seja por inteligência artificial, seja por outras ferramentas, é muita pautada pela ideia de comando. Você faz um comando e esaa máquina responde ao seu comando. No cinema, isto não existe. Você pode escrever uma cena, posicionar a câmera do jeito que queria, mas vai sair algo que não é tão controlável assim. É esse descontrole na criação que interessa pra gente. Acreditamos que o filme cresce quando ele é mais do que aquilo que queríamos que ele fosse. A imagem sempre tem uma autonomia própria da natureza dela, uma manualidade, uma tactilidade da imagem. Uma criação muito mediada por comandos tende a ficar reduzida. Essa criação que se abre ao que pode acontecer fora do meu comando tende a ser mais livre.
CVM IV – Quais tipos de experimentação foram escolhidos para ajudar o grupo de autoras e autores a exercitar o olhar e a escuta?
Mariana – A gente faz uma combinação de dois procedimentos: realizar exercícios práticos de experimentação com imagem e som e assistir trechos de filmes que nos trazem formas diferentes de linguagem. A gente assiste, comenta esses trechos e faz esses exercícios. Este ano, optamos por trazer um material que na edição anterior imprimimos numa folha A4, mas, neste ano, encadernamos o texto a mão, com um bordado na capa. Justamente por apostar que a forma muda o modo como nos relacionamos com o conteúdo. A gente queria chamar atenção pros efeitos que um texto provoca conforme a forma que esse texto toma.
Cintya – Todas as aulas do curso são muito direcionadas ao filme de cada um. A gente tem essa crença que o processo criativo se dá em todas as instâncias da vida de uma pessoa. É um processo que é anterior a este curso e permanece. Na nossa primeira aula decidimos trazer algumas fotos e propor um exercício de narração dessas imagens. Cada um escolheu uma foto e narrou em voz alta. Esta narração não podia ter relação com a pessoa nem com seu filme. Esse exercício promove um olhar pra esta imagem que não é sua. O que você enxerga nesta imagem (cores, pessoas, ações). Neste caso, a imagem te dá a resposta. É algo que não controlo, não domino, pois a imagem traz estes elementos. A segunda parte do exercício é a fabulação: a partir destes componentes da imagem, como crio uma história. Se é mais fantasiosa ou mais realista vai depender de cada um. Eu acho que é um processo muito bonito, pois traz o jeito que a pessoa narra, quais palavras escolhe, quais nomes dá para os personagens, se é uma história de um momento ou de uma vida inteira que surge a partir de uma foto qualquer.
CVM IV – Como estas experimentações vão inspirá-los nesta relação entre o manual do cinema e o cinema manual?
Cintya – É meio “pode qualquer coisa só não pode de qualquer jeito”. Nessa primeira aula, nós passamos o início do filme Noir Blue, da Ana Pi, que traz essa ideia de como narrar dentro do cinema. É um filme muito bonito e interessante para se pensar nessa narrativa. O filme traz um grande momento de tela preta, imagens abstratas, uma performance, as cores como elementos muito importantes, uma montagem muito criativa. São elementos que podem ser usados nos filmes de cada um. Como experimentar com diferentes tipos de suporte? Muitos autores desta edição pensam em colocar arquivos nos filmes. Como estes arquivos entram? Alguns estão pensando em fazer narração. Como esta narração entra? Não é de qualquer jeito. Pode tudo. Mas tem de pensar. E mais do que pensar, você precisa estar fortalecido pra tomar as decisões que mais têm a ver com o seu filme e com você. Acho que parte deste fortalecimento tem a ver com repertório de coisas que assistimos e de experimentações. Como reelaboro esta ou aquela experiência dentro do meu filme? Como estas experimentações podem ser refletidas e reelaboradas nos processos dos filmes de cada um?
Mariana – Eu acho que o cinema manual se encontra visceralmente com o modo de fazer do Curta Vitória a Minas. Porque são realizações muito comunitárias, então, já tem algo de artesanal aí. As pessoas vão voltar para suas cidades e vão convidar pessoas que nunca atuaram para virar atrizes e atores, pessoas que nunca fizeram figurino pra cinema pra virarem figurinistas. É um processo que tem uma artesania, não está no lugar do especialista, e encontra sua força aí. Já é um modo de fazer do CVM, que aposta nessas pessoas que estão completamente apaixonadas por aquilo, estão se arriscando a fazer um monte de coisas pela primeira vez porque amam aquela história. O cinema manual vem pra acompanhar esse movimento, pra instigar os participantes a carimbarem suas mãos nos filmes que estão prestes a nascer.
Texto: Simony Leite Siqueira
Foto: Patricia Cortes

