Montar é fazer escolhas e relações

Durante a imersão audiovisual do Curta Vitória a Minas IV, as autoras e autores das histórias experimentaram diferentes etapas da realização de um filme. Um dos exercícios propostos pela equipe de professores de cinema e TV foi gravar e montar uma cena do roteiro. Após o mergulho no set, cada autor (a) vivenciou a etapa da edição com o acompanhamento e a orientação da montadora Marcia Medeiros.

Tudo começa ao transpor o texto literário das histórias para o roteiro de cinema. Aos poucos, os participantes deram os primeiros passos para a apropriação da gramática audiovisual. “A menor unidade do cinema é o plano, assim como a menor unidade o texto é a palavra. A forma como a gente conecta palavras, constrói frases e parágrafos diz do nosso estilo. E é isso que queremos transpor para o cinema, para que os alunos possam a partir da apropriação dessa nova linguagem criar o seu modo próprio de transformar as suas histórias em filmes”, explica Marcia.

As escolhas

Este jeito de contar uma história através de imagens e sons relaciona-se com o modo como a direção decupa uma cena. Quais serão os planos, quanto tempo durará cada plano, quais serão os movimentos de câmera, qual posição da câmera em relação ao objeto, quais serão as paisagens e ambiências sonoras, e principalmente, qual a razão de cada escolha porque tudo se relaciona à dramaturgia. Estas decisões tomadas na decupagem formam o ponto de partida para a montagem.

“Quando descrevo no roteiro: “Pedrinho cuida do jardim”, dependendo do diretor ou da diretora, pode virar uma cena muito distinta da outra, em função da decupagem. Decupagem é uma forma de separar em pedaços. E os pedaços com os quais trabalhamos são os planos. Planos de imagens e planos sonoros. Este exercício de decupar os planos no roteiro já é a preparação para a edição. É com os planos que trabalhamos na montagem, então, vamos criar relações entre eles, estabelecer um ritmo, uma unidade espaço temporal, a realidade do filme, e não mais a realidade da vida”, comenta a montadora.

Bem de perto

O funcionário público federal Geremias Pignaton, selecionado com a história “Julyta e o Zeppelin”, de Ibiraçu (ES), transformará em filme uma memória de infância da sua mãe. Ele conta, que embora tenha tido contato com programas de edição em outras ocasiões, nunca havia acompanhado de um jeito tão próximo o trabalho de uma profissional dando sugestões de montagem. “Este exercício foi muito importante para pensar o filme antes da edição. Quando a gente estava filmando, não tinha a ideia ou tinha pouca ideia de como seria montar, de como seria editar. E com esta experiência da edição já podemos, durante a filmagem, preparar a montagem. Não somente na filmagem, até durante o processo de decupagem, já podemos estar de olho no final, que vai ser a edição. Gostei muito da experiência”, avalia Geremias.

Quem também evidencia a riqueza de se conhecer os processos por trás da imagem e do som foi o professor do 5º ano das séries iniciais Helder Guastti, de João Neiva (ES), selecionado com a história “Inventário da Infância”. “Sou apaixonado por compreender as formas, técnicas, meios e repertórios que permitem as obras irem se (re)constituindo enquanto narrativa. Acompanhar a montagem da cena com uma profissional tão apaixonada como Marcia foi uma experiência realmente única! Fiquei hipnotizado por sua agilidade ao realizar os comandos indo de frame a frame de maneira fluida, bem como sua paixão por montar e tentar nos oportunizar a experiência mais rica possível. Conhecer este “outro lado” pode evidenciar que, de fato, são muitas as camadas a serem consideradas na artesania cinematográfica. Estou saindo deste processo de imersão com a mente debulhando todos os sentidos e com os olhares muito mais apurados para com todo os processos que compõem as linguagens cinematográficas. Espero conseguir utilizar, da melhor maneira possível, todo o conhecimento ressignificado nestes dias na feitura de meu filme!”, relata Helder.

Os detalhes

Para a professora Tânia Reis, de Aimorés (MG), selecionada com a história “Uma Viagem…Minha parte da História”, participar da montagem de uma cena foi precioso. “Foram momentos de construção com escolhas das partes que ficaram melhores aos nossos olhos e os ajustes bem detalhados. É bem trabalhoso. Tivemos uma excelente orientação da editora Marcia. Foi prazeroso e emocionante! Gratidão”, destaca a mineira que fará um documentário inspirado nas memórias vividas por ela durante a Enchente de 1979.

De acordo com Marcia, os autores e autoras saem do curso inspirados por tudo o que viram, ouviram, assistiram e criaram, formando novos repertórios, valorizando cada detalhe como uma artesania. “A entrada nesta nova linguagem cheia de possibilidades faz com que olhem o mundo com outros olhos agora. Que eles sigam decupando estes roteiros, entendendo de que forma vão contar estas histórias, se apropriando desta linguagem da melhor forma possível e que cheguem na montagem maduros e seguros das escolhas”, destaca a montadora.  

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Mariana de Lima