Cuidar da composição de arte do filme envolve planejamento e organização dos cenários, dos objetos de cena, dos figurinos e da paleta de cores. Mas antes da construção da materialidade de uma obra audiovisual é preciso encontrar a motivação da história. Este processo marcado pela subjetividade e pelas conexões constrói os caminhos possíveis para o filme encontrar o espectador. Quem conta como percorrer esta jornada para a criação do conceito de arte de um filme é Ana Paula Cardoso, professora de direção de arte do Curta Vitória a Minas IV.
CVM IV – Qual a função da direção de arte?
Ana Paula Cardoso – O papel da direção de arte é criar universos. Cada história está inserida dentro de um universo, não só aquele que a gente reconhece, como também aquele que está dentro deles, das memórias, do que eles entendem de mundo. E isso vai naturalmente refletir no que cada espectador tem como possibilidade de responder a esta interpretação. Cada um que assiste tem a possibilidade de responder, não corresponder, mas responder a esta experiência de assistir a um filme com seu próprio acervo pessoal.
CVM IV – No senso comum, as pessoas entendem que a direção de arte organiza os cenários, os objetos, os figurinos, escolhe as cores, a materialidade do filme, mas, antes, vem a formação do conceito. O que é este exercício do pensamento para criação da arte de um filme?
Ana Paula Cardoso – A direção de arte é muito mal compreendida justamente porque as pessoas acham que se trata das coisas que temos a possibilidade de tocar. Acho que, antes disto, é entender que história é essa, que universo é este, que pode ser real ou imaginário. O real e o imaginário podem existir sem nenhum confronto na mesma história. Então, primeiro, é entender que filme, onde esta obra existe (numa perspectiva mais ampla do que no sentido de lugar), até mesmo porque pode ser um não-lugar. Entender de que forma esta história se coloca, como ela existe, qual o estado de presença dela. É um mergulho nos sentimentos, nas sensações, no que pode ser compreendido, enquanto espaço de memória, ou como pode ser compreendido um espaço de projeção de um futuro possível. Eu acho que tem tantos lugares para habitar e estes espaços podem coabitar com outros. Acho que cada história sugere também uma maneira de enxergar todo este universo possível.
CVM IV – Qual avaliação você faz das histórias desta quarta edição e dos desafios que seus autores e autoras terão para construir seus filmes?
Ana Paula Cardoso – Acho que tem uma coisa em comum entre todas as histórias. Todas partem de uma experiência pessoal, de uma memória afetiva muito forte. O desafio da gente que chega provocando como que eles vão colocar isto em tela é estimular um exercício de deslocamento deste lugar tão pessoal para que os autores possam ocupar um outro lugar. Eles devem olhar pra esta história, em vez de viver esta história, e criar um universo possível de comunicação para que estas histórias não entrem em tela como relatos pessoais para eles mesmos, mas que partam de uma memória, de algo pessoal, transformando esta vivência em matéria-prima para a criação de histórias universais. É convidar quem está assistindo a viver isto junto e ser também quase um coautor destas histórias.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima

