A produção e a materialidade do sonho

O roteiro cinematográfico é um guia escrito sobre como fazer o filme. A peça é composta por cenas, diálogos, ações e cenários. Ali estão contidos o argumento, as intenções, a essência, a dramaturgia de uma história. Para o roteiro ganhar materialidade, uma função fundamental dentro do cinema é a produção. Os autores e autoras do Curta Vitória a Minas IV, reunidos numa imersão audiovisual, na sede do Instituto Marlin Azul, começaram a compor o plano de produção de seus filmes com a orientação do produtor e professor universitário Alexandre Guerreiro.

O trabalho da produção percorre toda a jornada de realização do filme passando pelas etapas de pré-produção, produção, filmagem e pós-produção. Com um olhar atento, responsável e organizado, esta função viabiliza a existência da obra. E um dos primeiros passos desta caminhada é a análise detalhada do roteiro para se mapear os elementos e recursos necessários para se realizar o sonho de fazer um filme. Quem são os personagens, quais são as locações, objetos de cena e figurinos, quem comporá a equipe, quais equipamentos serão necessários, qual o tamanho do orçamento do projeto são algumas informações identificadas e organizadas pelos produtores.

“A principal habilidade deste profissional é a organização, seguida de perto por uma responsabilidade extrema em relação a tudo o que se quer realizar, seja em relação aos gastos, às etapas, sem esquecer de nada, daí esta relevância de uma organização especialmente bem feita. Por isso, uma análise técnica elaborada com todo cuidado, um bom relacionamento interpessoal, o respeito ao trabalho de todas as equipes. Este profissional viabiliza ou pensa soluções para aquilo que até então tinha sido imaginado pelo roteirista e pela direção na sua decupagem. O bom produtor é aquele que contribui, que não corta as propostas artísticas, criativas, pois ele também colabora criativamente na medida em que possibilita que a produção seja colocada de pé”, detalha Alexandre.

Segundo Alexandre, a dedicação e a paciência com cada detalhe, sem pressa, sem acelerar, durante a pré-produção, podem evitar problemas na gravação. “Um cuidado importante é prever alguns erros previsíveis e evitáveis. Um exemplo é organizar a gravação de modo a agrupar cenas de uma mesma locação no mesmo dia para evitar uma desprodução desnecessária e um retorno a uma locação que já poderia ter sido eliminada do plano de filmagem. São pequenos erros que podem ser evitados com experiência, mas também com bom senso, espírito de responsabilidade e de organização. A gente quer produzir de uma maneira que tudo transcorra bem no set até para que o prazer de realizar este sonho que é contar uma história se dê da maneira mais fluida, mais afetuosa possível”, orienta o produtor.

Alexandre destaca ainda a importância do espírito colaborativo na realização de uma obra, em especial, numa produção com envolvimento comunitário como o do Curta Vitória a Minas. “Apesar das hierarquias que se estabelecem na produção audiovisual, a gente passa a ter um cenário diferente que é realmente o da colaboração. Tem as divisões das equipes, mas está todo mundo junto. É fundamental imprimir esta horizontalidade das relações com muita escuta em relação à contribuição de cada agente, de cada pessoa que está envolvida no processo. Todo mundo ganha com isso e, certamente, a obra também ganha na medida em que esta colaboração estará no filme”, completa Alexandre.

Texto: Simony Leite Siqueira

Fotos: Mariana de Lima