Uma pessoa caminha na multidão. Ela se sente sozinha e deslocada. No cinema, um dos jeitos de transferir o sentimento desta cena para o espectador seria retirar todas as vozes e ruídos do ambiente até que se ouça apenas a pulsação ou a própria respiração do personagem. Este é um dos exemplos de como o som no audiovisual pode canalizar a emoção da história. Durante a imersão audiovisual do Curta Vitória a Minas IV, os autores e autoras começaram a reconstruir seus roteiros dentro da dimensão sonora.
O som desperta emoções, dá ritmo e cria sensações. Diálogos, ruídos, música, efeitos sonoros e até o silêncio fazem parte da trilha do filme. Existem inúmeras possibilidades de usos e combinações destes elementos para contar uma história na tela. “Como o som é força física que encosta no espectador, é uma vibração que sai da caixa de som, atravessa a sala de cinema e toca quem está assistindo, ele é uma maneira do filme ressoar, vibrar no corpo, tornar audível algum sentimento que o personagem pode estar sentindo, permitindo ao espectador vivenciá-los na pele”, destaca Guile Martins, convidado pelo projeto para conduzir os participantes nestes estudos e experimentações sonoras.
O silêncio é um recurso narrativo da composição audiovisual. “Quando falamos de som também temos que destacar os silêncios do filme, quando, de repente, tudo se esvazia e é justamente a remoção dos sons que prende o espectador na tela: a ausência de som ou pequenos sons bem sutis. Não precisamos pensar só no excesso de barulhos, mas, às vezes, pelo contrário, na escassez de som, que pode permitir ao espectador se conectar ainda mais com a imagem”, exemplifica o professor.
O processo de criação do som fílmico começa na elaboração do roteiro, passando pelo planejamento da produção, chegando às filmagens, à edição até a mixagem final da obra. Guile orienta o realizador a aprender a ouvir. “E ouvir como o microfone ouve para pensar quais sons ajudam e quais sons vão atrapalhar a narrativa audiovisual. É tentar privilegiar os sons importantes para o que se quer relatar, sejam as falas, os passos, a respiração de um personagem, e fazer ao máximo pra barrar ou minimizar os sons indesejados. Um cuidado é chegar numa locação e ouvir com o fone de ouvido pra começar a prever os problemas sonoros”, orienta.
Assim como a imagem se divide em planos, o som também precisa de decupagem. O realizador deve se atentar ao repertório de sons dentro e fora do ambiente do set. Isso significa coletar sons não somente durante a gravação da câmera, mas também sons fora de campo, que não pertencem ao plano, que podem ajudar a contar a história. “Se estou fazendo um filme dentro de uma fábrica, por exemplo, vou pensar em gravar o som destas máquinas, gravar de perto, de longe. Esta é a decupagem de som. Se os sons das máquinas são essenciais pra minha história, vou gravar. Podemos pensar em uma paleta de sons, assim como a direção de arte tem sua paleta de cores, um conjunto de sons importantes para o filme. Alguns podem não ser utilizados depois, mas, outros podem ajudar na montagem. Por isso, é muito legal tentarmos gravar isso durante o set para irmos para a montagem com este material como uma ferramenta criativa”, destaca Guile.
A quarta edição reúne histórias vindas de Ibiraçu e João Neiva, no Espírito Santo, e de Aimorés, Conselheiro Pena, Belo Oriente, Nova Era e João Monlevade, em Minas Gerais. Os autores e autoras estão estudando a linguagem e as técnicas audiovisuais desde 23 de novembro e continuam até 07 de dezembro. “Apesar de nunca terem feito filmes, eles estão cheios de histórias. São vivências muito pessoais. O desafio é encontrar os caminhos para transpô-las pra o meio audiovisual. Só precisa entender como a linguagem audiovisual pode servir a esta história, como esta história tem que mudar para virar filme”, conclui o professor.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima

