O ano de 1979 marcou milhares de pessoas no Espírito Santo e em Minas Gerais. Depois de chuvas intensas e contínuas, diversas cidades construídas às margens do Rio Doce foram inundadas. As enchentes desabrigaram famílias, destruíram casas, estradas, pontes, muros e interromperam o funcionamento de rodovias e da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM). Hoje, 47 anos depois, a professora Tânia Reis, de Aimorés (MG), contará como ela e sua comunidade vivenciaram um dos maiores desastres naturais da Região Sudeste. As gravações do filme “Águas de 1979”, uma das histórias selecionadas pelo Curta Vitória a Minas IV, aconteceram de 03 a 06 de junho, na cidade.
O lavrador e leiteiro João dos Reis Filho e a dona de casa Ester Cardoso tiveram quatro filhos: Roberto, Geane, Tânia e Fábio. No final dos anos 70, a família morava próximo à estação de trem, na parte urbana, e mantinha na parte norte da cidade, do outro lado do rio, um pequeno sítio herdado dos antepassados. João trabalhava como agricultor, tirava leite para vender e, nos intervalos, fazia trabalhos informais numa distribuidora de refrigerantes e numa empresa de laticínios. Todos os dias ele atravessava o Rio Doce numa canoa em direção ao sítio onde buscava o leite para vender de casa em casa. Nesta época, as águas do rio eram caudalosas, dava até para pegar peixe com a mão.
Nas idas e vindas, o lavrador aproveitava para colher os alimentos cultivados na terra. Era uma vida simples e não faltava comida. Desde os tempos dos avós, tanto a família do pai quanto a da mãe da diretora costumavam ter a casa cheia porque as portas viviam abertas para ajudar ou se confraternizar com as pessoas. Na área urbana, a vida era tranquila. As crianças estudavam, faziam as tarefas domésticas, brincavam na rua e no quintal, costumavam ver novelas, desenhos animados e filmes de super-heróis na TV de tubo, antigo aparelho de televisão analógico, e frequentavam a igreja. A garotada sonhava com as viagens mais distantes. Queriam ver os prédios e as luzes da cidade grande.
No dia 10 de janeiro de 1979, Tânia, aos 10 anos de idade, a mãe e os irmãos entraram no trem de passageiros para uma viagem de férias na casa da tia, na capital mineira. Como o percurso era longo, a mãe preparou biscoitos, pão caseiro, rosca, pão com mortadela e frango com farofa. O passeio em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, duraria poucos dias, no entanto, a estadia se estendeu por cerca de um mês e meio porque as inundações isolaram cidades capixabas e mineiras. Uma das atingidas foi Aimorés. Sozinho em casa, pois preferira não viajar, João Reis conseguiu com a ajuda dos vizinhos retirar a pouca água que invadiu a sua residência e começou a socorrer as pessoas que precisaram abandonar as casas alagadas no centro da cidade.
Ao longo de 30 dias, o lavrador usou seu bote para resgatar e levar gente até o hospital de onde saía um caminhão rumo aos abrigos de Baixo Guandu, cidade vizinha que acolheu quem precisou se retirar de casa. Aimorés ficou inundada, sem água potável e sem energia elétrica. João ainda utilizava o bote para transportar alguns poucos móveis e utensílios recolhidos pelos moradores. Mais tarde, quando as águas começaram a baixar, ele também ajudou a limpar prédios e ruas. Longe dali, sem poder voltar, a família acompanhava com preocupação e incerteza as imagens e histórias narradas na televisão. Segundo a diretora, o filme mostra este protagonismo do pai e da sua comunidade diante da tragédia. Da mesma forma celebra um tempo em que o rio se integrava ao cotidiano da sua família como meio de sobrevivência, de deslocamento e de interação com a natureza.
“Eu trabalhei durante a enchente atravessando gente, tirando gente, levando de bote até perto do hospital para ir embora pra Guandu. Eu me senti bem porque pude tirar as pessoas do perigo. Graças a Deus, o meu bote não virou. Para mim não teve nada fácil, tudo era difícil, porque tinha que enfrentar um rio. A gente tem que dar graças a Deus por ter passado por esta. Estamos acostumados a mexer com água, toda a vida fomos criados com canoa, desde a idade de 15 anos. Não passamos muito medo porque a gente sabia o que estava fazendo, mas mexer com água é perigoso. Esta enchente de 1979 foi um desastre para muita gente”, relata João dos Reis Filho, hoje, com 88 anos de idade.
Vida compartilhada
Durante a composição do roteiro, a diretora escolheu contar esta história por meio da reconstituição ficcional dos principais episódios vividos pelos familiares e a partir de depoimentos de quem testemunhou bem de perto a angústia. As pesquisas sobre o acontecimento revelaram a Tânia como sua história toca outras histórias. A comunidade compartilha uma memória coletiva.
“Eu pensei em contar a minha história e a da minha família. Mas o filme tomou uma dimensão maior. Esta é a história de muita gente. Eu quero que as pessoas revejam nesta história as suas histórias. Muitos foram impactados pelo desastre. Eu queria também falar sobre a superação. Depois teve um movimento de recuperação, de reconstrução do lugar. Solidariedade também é uma palavra muito importante. Um ajudou o outro. As casas de pessoas mais simples ficaram cheias de gente porque suas moradias estavam no alto onde as águas não chegaram. Houve uma comoção grande. Quando acontece uma tragédia, uma enchente, ou outro evento catastrófico, as pessoas se juntam”, relata Tânia.
Filha de José Iglesias Garcia e de Jacirema Pereira Garcia, Rosângela Iglesias tinha 16 anos neste tempo. “A nossa casa recebeu cinco famílias que precisaram sair de suas residências. A gente morava numa casa com estrutura alta que tinha uma calçada muito alta. A água veio até a beiradinha da varanda. Mas nós tivemos que sair assim mesmo porque a Defesa Civil nos tirou porque não sabia quanto mais água vinha. Quando deixamos a residência já estava entrando água pelo banheiro, pelo esgoto, mas não encheu a casa. Saímos todos pelos fundos, pois pela frente não dava porque a correnteza era muito forte. Pulamos um muro, atravessamos o morro da antena de rádio, descemos, subimos outro morro, da Barra Preta, descemos até alcançarmos a linha do trem, que estava seca nesta altura, continuamos andando até chegar ao terreno do meu avô Olímpio”, conta Rosângela, hoje professora aposentada.
Vovô Olímpio Iglesias Garcia e vovó Amélia Iglesias Fernandes moravam numa chácara grande onde funcionava uma cerâmica, na divisa com Baixo Guandu. A família de Rosângela e as demais famílias se juntaram a outras. Ao todo, dez famílias compartilharam a casa do avô. Do caos e da destruição emergiu a solidariedade. As pessoas se uniram, construíram laços e se apoiaram mutuamente. No seu olhar de jovem naquele momento tudo parecia uma grande aventura com emoções de todo tipo.
“Tudo o que aconteceu mexeu com cada um de nós. Mas acredito que foi construtivo. Os apertos que nós passamos, as aventuras, encarar aquele rio, atravessar o rio é muita emoção, ver um jabuti carregando uma aranha no seu casco. Ao mesmo tempo foi triste porque víamos as casas caírem, as pessoas chorando, reclamando e, depois das águas, adoecendo por causas das contaminações. Tudo isso nos ensinou a valorizar a vida, a natureza e a nossa casa comum, tudo aquilo que Deus nos deu, então, foi de grande aprendizado para nós”, avalia a professora.
Mobilização
Amigos, familiares e alunos de Tânia Reis se integraram à equipe local, reforçando um dos principais elementos do projeto: a mobilização comunitária. A estudante Alice Ferreira Theodoro, 09 anos, do 4º ano do ensino fundamental, ficou feliz e surpresa com o convite para interpretar a diretora na infância. “Nunca fiz um filme antes. Eu me preparei com muitos ensaios e muita leitura. Eu gostei de encenar, achei legal. O set de filmagem muito criativo. A cena do quarto foi a mais difícil porque muito veículos estavam passando, fazendo barulho. Não dava pra gravar. Achei a história da enchente impactante, não conhecia”, conta a menina.
Rosângela Iglesias ficou emocionada em participar como assistente de direção do filme sobre a enchente. Esta é sua terceira participação no Curta Vitória a Minas. Na primeira edição, em 2014, foi selecionada com a história “Estranha Criatura”. Depois, na segunda edição, em 2022, compôs o elenco da ficção “Lia: entre o Rio e a Ferrovia”, de Elisângela Belo.
Na segunda edição do Curta Vitória a Minas, Tânia Reis vivenciou os desafios do set de filmagem como atriz ao interpretar a mãe da protagonista da ficção “Lia: entre o Rio e a Ferrovia”. Desta vez, a professora apaixonada pelas atividades teatrais da escola estendeu sua vivência cinematográfica.
“Dirigir o filme com todo o apoio e competência da equipe de filmagem foi como quem sonha algo tão bom e não quer acordar, me senti deslumbrada. É claro que houve desafios, dúvidas e preocupações em relação aos locais, cenas, objetos e personagens. Mas, graças a Deus, deu certo. Assistir as cenas e ver a sua história sendo dramatizada foi simplesmente emocionante! Amei acompanhar as gravações pelas lentes de cinema. A visão é outro nível. O elenco foi além da minha expectativa e não tive trabalho para coordená-los, eles estudaram direitinho os seus papéis e brilharam. Devo muito ao pessoal da filmagem que fez intervenções preciosas durante todo o processo. O gostoso é que houve um engajamento da comunidade. Eu tenho muito a agradecer aos meus familiares, amigos, alunos e irmãos em Cristo que tão prontamente aceitaram participar, àqueles que abriram as portas de suas residências e comércio para que eu pudesse livremente usá-los. São pessoas, gestos e emoções que ficarão eternizados em meu coração. Um sonho realizado não é aquele que sonhamos sozinhos. E essa história diz muito isso, muitas pessoas verão suas histórias representadas nesse curta”, comemora a diretora.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima






