As cidades do interior contam muitos causos populares. Histórias engraçadas, tristes ou assustadoras, transmitidas por meio da tradição oral, de geração em geração, sobre coisas ocorridas ou imaginárias, ou uma mistura do real com o inventado. Mas esta história carregada de mistérios selecionada pelo Curta Vitória a Minas IV para virar filme esperou quase 60 anos para ser revelada a comunidade. As gravações de “Noite de Natal”, de Lucia Elena Belizário, aconteceram de 18 a 22 de maio, em Conselheiro Pena (MG).
O curta-metragem é inspirado na história real de duas irmãs, Silvanira, de 14 anos, e Lucia Elena, a própria diretora, quando tinha apenas 6 anos. O filme resgata os estranhos acontecimentos vividos pelas meninas no momento em que atravessavam o jardim da praça central da cidade na noite de Natal de 1966. Filhas de Geralda Dias Nunes e de Milton Nunes Ribeiro, elas viviam na roça ao lado dos irmãos. Ao todo, o casal teve cinco filhos: Silvanira, a mais velha, Senira, Maria, que faleceu novinha, José Elias e Lucia Elena. O pai era carpinteiro habilidoso e honesto, prestava serviço nas fazendas da região e costumava trabalhar 15 dias fora.
Milton inventava as ferramentas necessárias para o serviço, se deslocava para o meio do mato, cortava a árvore, serrava por ali mesmo, fazia as tábuas, depois puxava os materiais na junta de boi e os levava para o lugar onde faria o curral, os móveis ou a estrutura das casas, como o assoalho. A mãe Geralda e a filha mais velha, conhecida como Silva, plantavam e capinavam. Os dois mais novos brincavam no mato e no córrego. A família era pobre, vivia como meeira na propriedade do fazendeiro Geraldo Januário Maia e tinha a casa cheia porque sempre cabia mais um menino ou menina que tivesse perdido os pais.
Nas festividades natalinas, a família saía da roça para visitar os parentes na cidade. A casa do Tio Joaquim, irmão de Geralda, era o ponto de encontro e confraternização dos familiares e um local de parada e abrigo para quem viesse de longe para resolver alguma demanda. “Neste dia, fomos eu, minha mãe, meu irmão José Elias e minhas irmãs Silva e Senira para a casa do tio. Andamos uns seis quilômetros a pé da roça até chegar no centro. A casa do meu tio era assim. Todo mundo que morava na roça e o conhecia, incluindo aquelas mulheres que iam ganhar neném, ficava na casa dele. Era um homem alegre, brincalhão, trabalhava como charreteiro, transportava da estação ferroviária até as imediações da cidade e outras localidades”, conta Lucia.
As duas irmãs se arrumaram para a missa na Matriz da cidade. Silva cansada da caminhada e do trabalho na lavoura. Como a igreja estava tão cheia, não havia mais espaço para ninguém, nem dentro nem fora, as meninas resolveram voltar para casa do tio Joaquim. Atravessaram a rua e entraram no jardim situado em frente à igreja. “Era um jardim simples, na praça central, e no meio tinha um viveiro grande com pássaros, arara, melro, canarinho, juriti. Era uma atração do lugar. As árvores tinham uma média estatura. Mas, na nossa visão de criança, pareciam grandes”, relata a diretora. O que aconteceu a partir dali dentro do jardim pareceu conto de realismo fantástico. As duas irmãs guardaram a história, no entanto, após a morte de Silva, a irmã mais nova decidiu contar o que as duas viveram.
O envolvimento
Diferentes lugares da cidade abrigaram as locações para as cenas. A praça não tem mais as árvores do passado, porém, não poderia faltar como cenário enfeitado de luzes de Natal para os momentos mais intrigantes desta aventura sobrenatural. A equipe de filmagem viajou até o distrito de Penha do Norte para gravar na Igreja de Nossa Senhora da Penha e contou com o apoio e o envolvimento da comunidade local para a realização da cena da missa.
A diretora percorreu as casas de amigos para selecionar e coletar objetos de cena, como panelas de ferro, de esmalte, bacias, e ainda juntou peças confeccionadas por seu pai, como gamelas, balaios e colheres de pau, para compor o cenário de época. Lucia convidou amigos e reuniu familiares de diferentes gerações para esta vivência. Quem colaborou com a missão desde a pré-produção até as gravações foi o irmão José Elias Nunes, 68 anos, que trabalha como eletricista, motorista e pedreiro. Zezinho, como é conhecido, percorreu a cidade junto com a irmã em busca de pessoas para compor o elenco, restaurou o banco onde o pai fazia o trabalho de carpintaria para servir de objeto de cena, auxiliou no serviço de fornecimento de energia elétrica para os equipamentos de filmagem na praça, foi motorista no deslocamento do elenco e ainda encenou o papel do tio Joaquim.
José Elias considerou uma grande honra representar o tio Joaquim, pois o tio sempre recebeu a família com carinho e, no período em que moraram na cidade, ajudou sua mãe Geralda a cuidar dele e das irmãs porque o pai precisava se afastar para trabalhar nas fazendas. “É a primeira vez que participei de um curta-metragem. Apesar de ser um curta, é difícil fazer um filme. É um tempo grande que gasta. Fico imaginando fazer um filme de duas horas. Eu gostei muito, foi gratificante e agradeço a todos por terem participado deste momento, em especial, por gravarem na casa do meu pai, uma casinha velha que está lá, que continua com as mesmas características dos tempos antigos”, destaca. O irmão de Lucia conta que começou a entender, andando pela cidade, conversando com as pessoas sobre o tema do filme, que a história das duas irmãs não aconteceu somente com elas, mas com outras pessoas também.
Quem participou da pré-produção e do elenco foi a professora do ensino fundamental Márcia Cristina Cândido Cruz, diretora do filme “Um Rio de Histórias”, selecionada na terceira edição do Curta Vitória a Minas, moradora de Conselheiro Pena. Segundo Márcia, estar novamente num set de filmagem do projeto lhe trouxe um novo fôlego, um novo vigor, pois ela considera fundamental para a cultura da cidade contar, recontar, recriar e reviver histórias através das telas do cinema.
“Conselheiro é uma cidade rica em histórias típicas. Quando estávamos lá no jardim, as pessoas relataram “isso aconteceu com o colega meu”, “a minha avó me conta isso”, “a minha mãe me conta isso”. Na minha família aconteceu um fato deste com a minha tia que estava indo para a prefeitura trabalhar e precisou atravessar o jardim. Todo mundo se sentiu representado com esta história. Estar ali no set de filmagem foi muito bom. Eu fico feliz porque eu também amo contar história. A Lucia foi muito criativa por mandar esta história cheia de magia, de encanto, que traz um pouquinho da infância dela”, destaca Márcia.
A vivência
A fisioterapeuta Lara Fernanda Dias Silva, 30 anos, sobrinha da diretora, num primeiro instante, se sentiu insegura e apreensiva para assumir o papel de Silva, porém, aceitou o desafio. Com o intuito de entender e compor sua personagem, procurou fotos e conversou com a diretora sobre como era o jeito de falar e de agir da irmã mais velha e como Silva reagira a cada situação dentro do jardim naquele episódio. De acordo com Lara, sua personagem foi uma mulher humilde, trabalhava pesado na roça, tinha uma pessoa de postura firme ao falar e, por ser mais velha, quando saía, costumava ser a responsável pela irmã mais nova.
Para a fisioterapeuta, em sua primeira atuação, o mais desafiador foi expressar a emoção certa em cada cena. “É mais difícil do que parece. A gente pensa, o filme tem poucas falas, é mais encenação. Quando estamos de fora, a gente pensa, é só encenar, está tudo certo, é só fingir. A gente tinha a impressão que estava passando aquela expressão certa, mas quem estava filmando via que não estava bom, então, era necessário repetir várias vezes. Achei esta parte a mais desafiadora: conseguir expressar o que aquela cena está pedindo naquele momento”, avalia Lara.
Apesar dos desafios e da falta de experiência, Lara gostou de encenar e se surpreendeu com a forma criteriosa e organizada em etapas de se fazer um filme. “O que eu mais gostei foi a experiência de vivenciar isso, participar de uma coisa que é importante, que agrega, tanto para nossa cidade, quanto para o instituto, quanto para a diretora do filme. Gostei também pelo fato de nos dar uma noção de como é a gravação, como é o trabalho das pessoas na prática. É uma coisa totalmente nova, fora da minha rotina. Foi muito interessante a experiência de participar e ver como é feito cada coisa, como cada cena é gravada, como é tudo monitorado, como se grava várias e várias vezes, se for preciso, pois são necessários vários takes. E também foi bom por poder conhecer e conviver com as pessoas. Toda a equipe que veio foi sensacional”, relata a fisioterapeuta.
A estudante Amanda Ferreyra da Silva, 11 anos, do 6º ano do ensino fundamental, interpretou Lucia na história. Ela também nunca atuou e recebeu o convite com surpresa e alegria. “Achei muito legal encenar. O mais desafiador foi fazer cara de assustada. Achei a história interessante. Todos da equipe são legais, pacientes. Quando fui fazer o filme, achei que não pudesse errar nada, nem um mínimo detalhe, mas eles me deram confiança. Eu gostei de fazer o filme e de interpretar a minha personagem”, conta a menina.
O advogado e servidor público municipal Elder Correa Sena, 39 anos, já tinha visto como funciona um set de filmagem, porém, foi sua primeira atuação diante das câmeras. Para interpretar o personagem, o Quelemente, ele deixou a barba crescer por cerca de um mês. “Sempre quis encenar, mas nunca houve uma oportunidade. Me preparei inspirado na foto do personagem e ouvindo os moradores do local. Segundo informações, era um senhor que ficava na praça de Conselheiro Pena, fazia chá para as pessoas, uma espécie de curandeiro, catava latinha, contava diversas histórias ou estórias, não era uma pessoa em situação de rua, ficava pela rua perambulando. Encenar foi uma sensação incrível, uma experiência inesquecível”, relata Elder.
Lucia Elena Belizário tem 66 anos. É sargento aposentada da Polícia Militar do Espírito Santo, formada em Administração e Gemologia. Também estudou Rádio e TV e participou do Grupo de Teatro da PMES. Ela ama fotografar o cotidiano e, agora, pela primeira vez, está fazendo um filme sobre sua vivência sobrenatural. Quer saber o que aconteceu com ela e sua irmã no Natal de 1966? É preciso esperar o filme ficar pronto para conhecer cada detalhe desta história cercada de mistérios.
“O que mais me emocionou foi ver a parte da minha irmã sendo encenada naquele momento. Foi uma vivência! Eu fico emocionada porque estou falando de mim e de minha irmã, da nossa convivência, da nossa experiência. Quando cito a situação, eu me lembro exatamente como foi e ela junto de mim. E, hoje, ela não está mais aqui. É interessante porque é uma história que ficou guardada por tanto tempo e agora está sendo transformada em filme. Acho que tudo tem o tempo certo. O tempo é agora. Foi mágico participar disto tudo, ver um projeto saindo do papel, ver as pessoas interagindo, interessadas, ajudando, emprestando seu material para gente concluir o nosso sonho. E, assim, fizemos o que pudemos com a ajuda de toda comunidade e da equipe”, celebra Lucia Elena.
Texto: Simony Leite Siqueira
Fotos: Mariana de Lima





