{"id":2766,"date":"2026-05-06T18:54:05","date_gmt":"2026-05-06T18:54:05","guid":{"rendered":"https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/?p=2766"},"modified":"2026-05-06T18:54:05","modified_gmt":"2026-05-06T18:54:05","slug":"cinema-conta-historia-de-trauma-e-superacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/cinema-conta-historia-de-trauma-e-superacao\/","title":{"rendered":"Cinema conta hist\u00f3ria de trauma e supera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>O Curta Vit\u00f3ria a Minas IV encerrou no domingo (03\/05) a grava\u00e7\u00e3o da primeira das sete hist\u00f3rias contadas por moradores de cidades mineiras e capixabas do entorno da Estrada de Ferro. Esta primeira hist\u00f3ria veio de Nova Era (MG) e volta 17 anos para narrar o quanto viver \u00e9 inesperado e extraordin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinte e quatro de janeiro de 2009. Poliana Guerra tinha 32 anos. A garota apaixonada por livros e viagens seguia para o Cemit\u00e9rio da Colina, em Belo Horizonte (MG), para acompanhar um sepultamento, quando, na Avenida Amazonas, o carro em que estava foi atingido por outro ve\u00edculo. Poliana fraturou a bacia, o f\u00eamur, quebrou seis costelas, teve les\u00f5es no f\u00edgado, no pulm\u00e3o, nos rins, na bexiga e traumatismo cranioencef\u00e1lico grave pr\u00f3ximo a uma morte cerebral.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma como\u00e7\u00e3o tomou conta da pequena cidade mineira que se mobilizou atrav\u00e9s de ora\u00e7\u00f5es e de mensagens escritas a m\u00e3o que chegavam para fam\u00edlia. Ap\u00f3s 28 dias em coma, Poliana despertou. Depois de sobreviver ao acidente e voltar do trauma, ela encarou uma batalha lenta e delicada para recompor suas fun\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e cognitivas e para reconstruir quem era com o apoio e o acompanhamento de familiares e de profissionais de sa\u00fade (fisioterapeutas, fonoaudi\u00f3logos, m\u00e9dicos, psic\u00f3logos e educadores f\u00edsicos). Ela sentia muita dor, n\u00e3o andava, n\u00e3o se alimentava sozinha, tinha metade do corpo paralisado (hemiplegia direita) e havia perdido d\u00e9cadas de mem\u00f3ria. Teve diplopia (vis\u00e3o dupla), perdeu o paladar, o tato, n\u00e3o distinguia cheiros, ouvia mal do lado direito e falava de modo embolado e r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 49 anos de idade, Poliana Ara\u00fajo Guerra, a nova erense formada em Comunica\u00e7\u00e3o Social com especializa\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas e em Administra\u00e7\u00e3o de Empresas com especializa\u00e7\u00e3o em Com\u00e9rcio Exterior, foi selecionada pelo Curta Vit\u00f3ria a Minas IV para contar sua hist\u00f3ria no cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA nossa capacidade \u00e9 imensur\u00e1vel. O que o humano tem de fr\u00e1gil, tem de imenso. O diagn\u00f3stico que tive quando sa\u00ed do hospital era de que eu poderia ser tudo ou nada. E eu decidi que seria tudo. E tem sido. Os m\u00e9dicos falaram que, provavelmente, eu n\u00e3o voltaria a andar, que eu n\u00e3o raciocinaria, que dependeria das pessoas para tudo. Eu voltei a andar, fa\u00e7o tracking, gin\u00e1stica, subo montanhas, nado, fa\u00e7o tudo, com alguma debilidade, mas nada que me impe\u00e7a de fazer o que eu quiser fazer. E eu estou produzindo um filme: a minha capacidade intelectual est\u00e1 a\u00ed tamb\u00e9m\u201d, destaca Poliana que nunca havia feito um filme e se encantou pela nova linguagem durante a imers\u00e3o audiovisual de 15 dias, ocorrida no ano passado, em Vit\u00f3ria (ES), e agora, nas filmagens realizadas de 30 de abril a 03 de maio em Nova Era.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia \u00e9 fazer um filme-ensaio, combinando narrativas, reflex\u00f5es, fic\u00e7\u00e3o e document\u00e1rio, sem formato, encaixes ou conceitos definidos, uma mistura de tempos, um recorte sem sincronia de imagens e sons, um mosaico de emo\u00e7\u00f5es, lembran\u00e7as, esquecimentos, confus\u00f5es, sil\u00eancios e descobertas, pr\u00f3ximo \u00e0 desordem mental enfrentada pela diretora no decorrer da reconstru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, trazendo para o espectador um pouco da experi\u00eancia da protagonista de buscar a si mesma pelo o que as pessoas contam e pelo que ela, aos poucos, vai se lembrando e reconstruindo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ressignifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A diretora convidou familiares e amigos para vivenciarem no cinema o que haviam sentido ao seu lado na vida real. M\u00e1rcia Ara\u00fajo Guerra, m\u00e3e de Poliana, estava apreensiva para atuar porque n\u00e3o sabia como reviver diante da c\u00e2mera situa\u00e7\u00f5es e sentimentos t\u00e3o intensos. \u201c\u00c9 um turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es porque a gente revive mesmo, principalmente, na cena do hospital. Eu fiquei encantada com as filmagens porque \u00e9 uma coisa muito nova pra mim, nunca vi e nunca vivenciei. A gente l\u00ea sobre uma filmagem, mas nunca participei, ainda mais para contar um fato, que apesar de ter acontecido h\u00e1 muito tempo, mexeu muito e at\u00e9 hoje tem reviravoltas. Foi uma emo\u00e7\u00e3o reviver tudo aquilo que foi muito marcante e muito traum\u00e1tico. Em algumas cenas, se eu pareci natural, era porque eu estava realmente revivendo tudo aquilo que aconteceu\u201d, conta M\u00e1rcia. Segundo ela, a compet\u00eancia, a perseveran\u00e7a e a dedica\u00e7\u00e3o da equipe de profissionais ajudaram-na a enfrentar o desafio do set de filmagem rico em detalhes t\u00e9cnicos e art\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tamb\u00e9m interpretou o pr\u00f3prio papel foi Melissa Batista Lobo, fisioterapeuta, que acompanhou todos os dias, durante um ano, o processo de recupera\u00e7\u00e3o dos movimentos da diretora ap\u00f3s o desastre. As duas estudaram juntas do Jardim de Inf\u00e2ncia at\u00e9 o segundo grau. O acidente a deixou muito abalada e apreensiva no in\u00edcio, mas, ao ser convidada para a reabilita\u00e7\u00e3o da amiga, ela tinha certeza de que faria o melhor para recuper\u00e1-la. \u201cForam meses intensos, de muitos desafios, mas tamb\u00e9m de alegria por estar novamente pr\u00f3xima de uma amiga querida. Principalmente porque a mem\u00f3ria antiga dela era mais preservada, ent\u00e3o ela se lembrava de nossa adolesc\u00eancia e essa parte era bem divertida\u201d, relembra a fisioterapeuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Melissa achou incr\u00edvel a experi\u00eancia de participar do filme. \u201cEu nunca tinha feito nada parecido com isso. Estou animada e ansiosa pra ver o resultado!\u00a0Relembrar essa hist\u00f3ria junto com a Poli \u00e9 um privil\u00e9gio. O processo de reabilita\u00e7\u00e3o dela foi um desafio pra mim como profissional e reviver esses momentos est\u00e1 sendo emocionante.\u00a0Contar essa hist\u00f3ria em um filme \u00e9 muito bacana, pois \u00e9 uma hist\u00f3ria linda de supera\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de vontade.\u00a0Fiquei um pouco nervosa com as grava\u00e7\u00f5es, por completa falta de experi\u00eancia, mas a equipe \u00e9 \u00f3tima e fez tudo fluir\u201d, relata Melissa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para encenar a sua vida no filme, Poliana convidou outra amiga, a psic\u00f3loga e neuropsic\u00f3loga Juliana Lage Affonso. \u201cFoi uma experi\u00eancia muito intensa, um grande desafio. N\u00e3o somente pela total falta de experi\u00eancia. Eu tinha a consci\u00eancia de que n\u00e3o era somente fazer um papel \u2014 afinal, \u00e9 uma hist\u00f3ria real. Uma jovem com a vida muito ativa e pr\u00f3spera que sofre um acidente e fica com uma s\u00e9rie de sequelas f\u00edsicas e cognitivas. Quase sem mem\u00f3rias. Meu maior compromisso, ent\u00e3o, foi tratar esse momento com todo o respeito e honrando o que minha amiga viveu e o que imagino que isso significou, especialmente para a m\u00e3e e a fam\u00edlia.&nbsp;Ao mesmo tempo, \u00e9 uma hist\u00f3ria que vai al\u00e9m do grave acidente. \u00c9 sobre for\u00e7a, reconstru\u00e7\u00e3o e recome\u00e7o. S\u00e3o 17 anos dessa trajet\u00f3ria. Ver tudo o que a Poliana conseguiu superar e, anos depois, iniciar uma nova fase da vida, construindo novas mem\u00f3rias inclusive com a maternidade, torna tudo ainda mais poderoso! Espero que o Curta toque as pessoas n\u00e3o pela dor, mas principalmente pela mensagem de esperan\u00e7a e de que \u00e9 poss\u00edvel recome\u00e7ar, mesmo atravessando algo t\u00e3o dif\u00edcil\u201d, destaca Juliana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cria\u00e7\u00e3o coletiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dezenas de familiares e amigos integraram a equipe local se dividindo em diferentes fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e art\u00edsticas para a realiza\u00e7\u00e3o do filme. Uma das parceiras da diretora desde a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, que incentivou a autora a inscrever a hist\u00f3ria, e tornou-se assistente de dire\u00e7\u00e3o nas filmagens, \u00e9 a turism\u00f3loga Sandra Coelho, moradora de Nova Era, selecionada com a hist\u00f3ria \u201cRevela\u00e7\u00f5es de Carnaval\u201d na terceira edi\u00e7\u00e3o do Curta Vit\u00f3ria a Minas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra sentiu-se honrada e motivada por voltar a um set de filmagem para reviver a experi\u00eancia de transformar uma hist\u00f3ria em filme. \u201cA hist\u00f3ria de Poliana \u00e9 forte e potente. Estou extremamente impactada com a riqueza dos detalhes que v\u00e3o ser contados nesta hist\u00f3ria e com a coragem dela de levar isso para o mundo em forma de filme. Chorei v\u00e1rias vezes por estar ao lado dela e por acreditar que esta hist\u00f3ria vai emocionar e levar as pessoas a refletir sobre a import\u00e2ncia de acreditar em si e de andar para frente apesar de todas as dificuldades\u201d, destaca Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>Poliana conta como o envolvimento de cada participante a fortaleceu em cada momento desta maratona audiovisual. Segundo ela, este cuidado come\u00e7ou com a qualifica\u00e7\u00e3o no curso audiovisual, a partir do acolhimento e das orienta\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas dos professores, se estendeu durante a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, com as revis\u00f5es de roteiro e o acompanhamento da produ\u00e7\u00e3o, se somou \u00e0 ades\u00e3o dos amigos e familiares ao elenco at\u00e9 se aprofundar na viv\u00eancia no set ao lado dos profissionais de cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando acho que a cena est\u00e1 perfeita, vem o Mazza (dire\u00e7\u00e3o de fotografia) com uma outra ideia, com um outro \u00e2ngulo, com um outro olhar, inserindo um detalhe na cena. Ou vem a Bia (produ\u00e7\u00e3o) propondo outras perspectivas. A grava\u00e7\u00e3o trouxe uma riqueza, um mundo de experimenta\u00e7\u00f5es muito gostoso. Eu tamb\u00e9m fiquei encantada com a ades\u00e3o do pessoal de Nova Era que chamei para participar comigo. Sandra, que me orientou no passo a passo, j\u00e1 encarou este processo na terceira edi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, ela me fez centrar, focar para eu n\u00e3o me perder diante de milhares de outras coisas que estavam acontecendo no set. Eu me senti assim totalmente qualificada pra fazer isso porque eu estava cercada de gente muito capaz e que estava me ensinando o tempo todo. Este processo aconteceu desde o in\u00edcio, com a Lulu (professora de roteiro), com a M\u00e1rcia (professora de montagem), eu senti isso muito forte desde as aulas e continuo sentindo este suporte. N\u00e3o consigo encontrar superlativos que sejam suficientes para descrever tanta alegria, cuidado, amor e profissionalismo, tanta experimenta\u00e7\u00e3o maravilhosa. Este projeto \u00e9 imenso, muito rico e nos capacita para produzir cinema. Isto \u00e9 acesso integral \u00e0 s\u00e9tima arte. Para al\u00e9m do consumo, produ\u00e7\u00e3o\u201d, enfatiza Poliana.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto: Simony Leite Siqueira<\/p>\n\n\n\n<p>Fotos: Mariana de Lima<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Curta Vit\u00f3ria a Minas IV encerrou no domingo (03\/05) a grava\u00e7\u00e3o da primeira das sete hist\u00f3rias contadas por moradores de cidades mineiras e capixabas do entorno da Estrada de Ferro. Esta primeira hist\u00f3ria veio de Nova Era (MG) e volta 17 anos para narrar o quanto viver \u00e9 inesperado e extraordin\u00e1rio. 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