{"id":1864,"date":"2025-11-28T15:59:14","date_gmt":"2025-11-28T15:59:14","guid":{"rendered":"https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/?p=1864"},"modified":"2025-11-28T20:32:57","modified_gmt":"2025-11-28T20:32:57","slug":"por-um-cinema-dos-sentidos-antes-de-comecar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/por-um-cinema-dos-sentidos-antes-de-comecar\/","title":{"rendered":"Por um cinema dos sentidos antes de come\u00e7ar"},"content":{"rendered":"\n<p>O cinema \u00e9 uma arte, uma t\u00e9cnica, uma tecnologia. Fazer uma obra audiovisual envolve um conjunto de regras, comandos e f\u00f3rmulas. Ao mesmo tempo, o filme \u00e9 um objeto produzido pelo trabalho humano. A pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 um ato em permanente cria\u00e7\u00e3o, com suas surpresas, imprevistos, reelabora\u00e7\u00f5es, atravessamentos. Durante o curso audiovisual em prepara\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o dos filmes, as autoras e autores das hist\u00f3rias selecionadas pelo Curta Vit\u00f3ria a Minas IV foram convidados a exercitar novas formas de olhar e de escutar. O m\u00f3dulo \u201cPor um Cinema Manual\u201d, que se desdobrar\u00e1 em cinco encontros, tem a orienta\u00e7\u00e3o das professoras e realizadoras Cintya Ferreira e Mariana de Lima, que nesta entrevista d\u00e3o detalhes sobre as infinitas possibilidades de uma viv\u00eancia para al\u00e9m do filme.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-c2bde2ba wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/wp-content\/uploads\/Cintya-e-mariana-1024x768.jpeg ,https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/wp-content\/uploads\/Cintya-e-mariana-scaled.jpeg 780w, https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/wp-content\/uploads\/Cintya-e-mariana-scaled.jpeg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 150px\" src=\"https:\/\/curtavitoriaaminas.com.br\/iv\/wp-content\/uploads\/Cintya-e-mariana-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"uag-image-1881\" width=\"1024\" height=\"768\" title=\"Cintya e mariana\" loading=\"lazy\" role=\"img\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>CVM IV &#8211; Desde a sua cria\u00e7\u00e3o, o cinema <\/strong><strong>\u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de arte e tecnologia. Qual a proposta do cinema manual?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mariana <\/strong>\u2013 O cinema manual prop\u00f5e uma invers\u00e3o que t\u00e1 no pr\u00f3prio nome. Se a gente troca as palavras de lugar, vira um manual de cinema, que \u00e9 um conjunto de regras e f\u00f3rmulas de como fazer um filme. O cinema manual seria a contram\u00e3o disso, seria uma aposta na cria\u00e7\u00e3o como um processo artesanal, cheio de surpresas. Estamos chamando de manualidade, mas s\u00e3o todos os sentidos, o olhar, a escuta, o tato, o jeito de prestar aten\u00e7\u00e3o. A manualidade chama aten\u00e7\u00e3o pra a tecnologia humana, antes de come\u00e7ar a pensar em c\u00e2meras, gravadores, ilumina\u00e7\u00e3o. \u00c9 o cinema como gesto, como artefato, fabricado pelas nossas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CVM IV &#8211; Num tempo dominado pela m\u00e1quina, como resgatar as formas artesanais de criar, em especial, como construir um cinema dos sentidos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cintya &#8211;&nbsp; <\/strong>O cinema \u00e9 anterior \u00e0 tecnologia cinematogr\u00e1fica. Tem a ver com olhar, com como voc\u00ea faz um recorte de mundo, como conta a sua hist\u00f3ria, como decide fazer de uma forma ou de outra. Tudo isso \u00e9 o cinema antes de virar um filme. Por exemplo, no material que entregamos para os alunos, fizemos uma moldura de papel, como forma de pensar esse enquadramento, esse recorte de mundo, que n\u00e3o precisa ser gravado, pois tem rela\u00e7\u00e3o com o exerc\u00edcio do olhar. Chamar de cinema uma coisa anterior, um modo como nos relacionamos com o outro, como nos relacionamos com a nossa comunidade, como filmamos a nossa rua, os nossos pais. Se queremos filmar muito de longe, ou se quero chegar muito perto. Tudo isso s\u00e3o escolhas est\u00e9ticas. Por exemplo, se voc\u00ea \u00e9 muito \u00edntima de uma pessoa, como traduzir esta intimidade pra imagem? \u00c0s vezes n\u00e3o \u00e9 sobre onde colocar a c\u00e2mera, mas como conversar com a pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mariana <\/strong>\u2013 Esta coisa da cria\u00e7\u00e3o mediada por tecnologia, seja por intelig\u00eancia artificial, seja por outras ferramentas, \u00e9 muita pautada pela ideia de comando. Voc\u00ea faz um comando e esaa m\u00e1quina responde ao seu comando. No cinema, isto n\u00e3o existe. Voc\u00ea pode escrever uma cena, posicionar a c\u00e2mera do jeito que queria, mas vai sair algo que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o control\u00e1vel assim. \u00c9 esse descontrole na cria\u00e7\u00e3o que interessa pra gente. Acreditamos que o filme cresce quando ele \u00e9 mais do que aquilo que quer\u00edamos que ele fosse. A imagem sempre tem uma autonomia pr\u00f3pria da natureza dela, uma manualidade, uma tactilidade da imagem. Uma cria\u00e7\u00e3o muito mediada por comandos tende a ficar reduzida. Essa cria\u00e7\u00e3o que se abre ao que pode acontecer fora do meu comando tende a ser mais livre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CVM IV \u2013 Quais tipos de experimenta\u00e7\u00e3o foram escolhidos para ajudar o grupo de autoras e autores a exercitar o olhar e a escuta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mariana<\/strong> \u2013 A gente faz uma combina\u00e7\u00e3o de dois procedimentos: realizar exerc\u00edcios pr\u00e1ticos de experimenta\u00e7\u00e3o com imagem e som e assistir trechos de filmes que nos trazem formas diferentes de linguagem. A gente assiste, comenta esses trechos e faz esses exerc\u00edcios. Este ano, optamos por trazer um material que na edi\u00e7\u00e3o anterior imprimimos numa folha A4, mas, neste ano, encadernamos o texto a m\u00e3o, com um bordado na capa. Justamente por apostar que a forma muda o modo como nos relacionamos com o conte\u00fado. A gente queria chamar aten\u00e7\u00e3o pros efeitos que um texto provoca conforme a forma que esse texto toma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cintya \u2013 <\/strong>Todas as aulas do curso s\u00e3o muito direcionadas ao filme de cada um. A gente tem essa cren\u00e7a que o processo criativo se d\u00e1 em todas as inst\u00e2ncias da vida de uma pessoa. \u00c9 um processo que \u00e9 anterior a este curso e permanece. Na nossa primeira aula decidimos trazer algumas fotos e propor um exerc\u00edcio de narra\u00e7\u00e3o dessas imagens. Cada um escolheu uma foto e narrou em voz alta. Esta narra\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ter rela\u00e7\u00e3o com a pessoa nem com seu filme. Esse exerc\u00edcio promove um olhar pra esta imagem que n\u00e3o \u00e9 sua. O que voc\u00ea enxerga nesta imagem (cores, pessoas, a\u00e7\u00f5es). Neste caso, a imagem te d\u00e1 a resposta. \u00c9 algo que n\u00e3o controlo, n\u00e3o domino, pois a imagem traz estes elementos. A segunda parte do exerc\u00edcio \u00e9 a fabula\u00e7\u00e3o: a partir destes componentes da imagem, como crio uma hist\u00f3ria. Se \u00e9 mais fantasiosa ou mais realista vai depender de cada um. Eu acho que \u00e9 um processo muito bonito, pois traz o jeito que a pessoa narra, quais palavras escolhe, quais nomes d\u00e1 para os personagens, se \u00e9 uma hist\u00f3ria de um momento ou de uma vida inteira que surge a partir de uma foto qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CVM IV \u2013 Como estas experimenta\u00e7\u00f5<\/strong><strong>es v\u00e3<\/strong><strong>o inspir\u00e1-los nesta rela\u00e7\u00e3o entre o manual do cinema e o cinema manual?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cintya \u2013 <\/strong>\u00c9 meio \u201cpode qualquer coisa s\u00f3 n\u00e3o pode de qualquer jeito\u201d. Nessa primeira aula, n\u00f3s passamos o in\u00edcio do filme Noir Blue, da Ana Pi, que traz essa ideia de como narrar dentro do cinema. \u00c9 um filme muito bonito e interessante para se pensar nessa narrativa. O filme traz um grande momento de tela preta, imagens abstratas, uma performance, as cores como elementos muito importantes, uma montagem muito criativa. S\u00e3o elementos que podem ser usados nos filmes de cada um. Como experimentar com diferentes tipos de suporte? Muitos autores desta edi\u00e7\u00e3o pensam em colocar arquivos nos filmes. Como estes arquivos entram? Alguns est\u00e3o pensando em fazer narra\u00e7\u00e3o. Como esta narra\u00e7\u00e3o entra? N\u00e3o \u00e9 de qualquer jeito. Pode tudo. Mas tem de pensar. E mais do que pensar, voc\u00ea precisa estar fortalecido pra tomar as decis\u00f5es que mais t\u00eam a ver com o seu filme e com voc\u00ea. Acho que parte deste fortalecimento tem a ver com repert\u00f3rio de coisas que assistimos e de experimenta\u00e7\u00f5es. Como reelaboro esta ou aquela experi\u00eancia dentro do meu filme? Como estas experimenta\u00e7\u00f5es podem ser refletidas e reelaboradas nos processos dos filmes de cada um?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mariana \u2013 <\/strong>Eu acho que o cinema manual se encontra visceralmente com o modo de fazer do Curta Vit\u00f3ria a Minas. Porque s\u00e3o realiza\u00e7\u00f5es muito comunit\u00e1rias, ent\u00e3o, j\u00e1 tem algo de artesanal a\u00ed. As pessoas v\u00e3o voltar para suas cidades e v\u00e3o convidar pessoas que nunca atuaram para virar atrizes e atores, pessoas que nunca fizeram figurino pra cinema pra virarem figurinistas. \u00c9 um processo que tem uma artesania, n\u00e3o est\u00e1 no lugar do especialista, e encontra sua for\u00e7a a\u00ed. J\u00e1 \u00e9 um modo de fazer do CVM, que aposta nessas pessoas que est\u00e3o completamente apaixonadas por aquilo, est\u00e3o se arriscando a fazer um monte de coisas pela primeira vez porque amam aquela hist\u00f3ria. O cinema manual vem pra acompanhar esse movimento, pra instigar os participantes a carimbarem suas m\u00e3os nos filmes que est\u00e3o prestes a nascer.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto: Simony Leite Siqueira<\/p>\n\n\n\n<p>Foto: Patricia Cortes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema \u00e9 uma arte, uma t\u00e9cnica, uma tecnologia. Fazer uma obra audiovisual envolve um conjunto de regras, comandos e f\u00f3rmulas. Ao mesmo tempo, o filme \u00e9 um objeto produzido pelo trabalho humano. A pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 um ato em permanente cria\u00e7\u00e3o, com suas surpresas, imprevistos, reelabora\u00e7\u00f5es, atravessamentos. 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